
– O que menina..
– Reconhecimento.
Os pequenos pés encardidos e com sapatinhos surrados balançavam freneticamente. A menina estava sentada no fundo da sala entre várias cadeiras, mas a sua era a mais isolada. Ela estava triste, havia mais de mês que começara a estudar naquela escola tão “boa” como dizia sua mãe e mesmo assim não entendia, não tinha amigos, ninguém viera falar com ela, todos a ignorava, todos fugiam dela. Ela continuou balançando os pezinhos e prestando atenção na aula, gostava de aprender, tinha ânsia de saber mais e mais. A professora era rigorosa, nenhuma vez lhe dirigiu um único sorriso amigo, nenhuma palavra de consolo, nada. Ela percebeu que com os outros coleguinhas, ricamente vestidos, todos arrumados, ela era carinhosa, uma boa professora até, e ela era ignorada. Era como se não existisse, na verdade ela não existia, era sozinha, vivia ignorada. Chegava em casa e chorava, dizia para sua mãe que não queria mais estudar ali, que as pessoas ali eram más, não brincava com ela, riam-se dela, ás vezes alguns até judiavam dela fazendo brincadeiras de mal gosto. Sua mãe ralhava e dizia que aquela era uma boa escola, que ela teve sorte do seu patrão a estar pagando, e toda vez que falava do senhor Durval ela enrubescia e gaguejava. Morava só as duas, nunca conhecera o seu pai, nunca soubera quem era ele, mas ás vezes fingia que o Sr. Durval era o seu pai, ele vivia brincando com ela e a chamando de princesinha, gostava dele.
A garotinha continuou olhando para o quadro e prestava atenção nas palavras da professora, passou alguns minutos e o sinal bateu. Ela se levantou e foi se encaminhando para o seu lugar secreto, que na verdade era no pátio um lugar onde ninguém ia, e lá ela fingia que morava as fadas e bichinhos mágicos. Se sentou sozinha e começou a comer o seu lanche, sua mãe havia preparado um pão com margarina e uma garrafa com suco, ela adorou.
-Olhem meninas, quem está ali! Aquela bastarda encardida. – As meninas riram alto e começaram a chama-la de bastarda, uma palavra que ela não conhecia, depois perguntaria a sua mãe. Mesmo não conhecendo aquela palavra ela lhe machucou, partiu seu coração pequenino, doeu até. Então ela fez como a sua mãe lhe ensinou, engoliu as lágrimas, jogou fora as palavras e começou a comer. As meninas foram embora rindo e ela ficou sozinha novamente.
O decorrer da aula passou rápido, a pequena garota viajava nas palavras da professora, ela era a melhor aluna até aquele momento, sempre tirava boas notas e era a que tinha melhor dicção para leitura. No final da aula sua mãe chegou com a roupa de empregada e lhe deu um beijo no rosto. Muitas mulheres bem vestidas diziam alto “Onde já se viu, filha de empregada, filha bastarda estudando aqui. Se ela continuar por muito tempo eu vou tirar o meu filho, ela será má companhia para ele!” e várias outras mulheres resmungavam a mesma coisa. Novamente a palavra “bastarda”, sua mãe olhou de cara feia para as mulheres engomadas e foram andando, resolveu não perguntar agora, mas já descobrira que era palavra feia!
Chegou à casa que elas moravam, as duas no quartinho de empregados, a menina colocou a mochilinha no canto e trocou de roupa, estava louca para ler para o Sr. Durval, ele gostava que ela lesse alto, e ela gostava disso, que ele gostava dela, seu único amigo. Na sala ampla e arejada ele estava sentado na poltrona, quando a viu abriu um belo sorriso e a chamou para um abraço apertado. Ela sentou em sua perna e se pôs a ler. Ele a olhava com os olhos brilhando, não tinha filhos, só ele e a sua mulher que vivia doente e acamada.
“Você está lendo cada vez melhor Lurdes. Estou emocionado com isso.” A menina ria encabulada, gostava desses elogios. “E como vai a escola? Está gostando?” sua expressão se tornou triste e severa, não gostava de falar da escola, um lugar tão ruim e tão bom ao mesmo tempo, ela gostava de aprender, mas não gostava das pessoas “Não gosto de lá, as pessoas são más, não falam comigo e vivem me chamando de “bastarda”, e eu não sei o que significa, o que é essa palavra?” os olhos do homem se tornaram frios e severo, sua boca se tornou uma linha fina, ele respirou fundo “Há quanto tempo isso vem acontecendo?” “Desde que eu cheguei lá.” “E a professora?” a menina olhou para baixo, a professora também não gostava dela, mas nunca a chamara de bastarda, apenas a ignorava “Ela só me ignora, mas nunca me chamou dessa palavra. Hoje umas mulheres falaram que eu podia sujar os filhos dela, mas eu tomo banho! Todo dia! O senhor não sabe disso?” O homem suavizou o rosto e lhe deu um sorriso triste “Eu sei que sim minha filhinha, sei que sim! Agora fique aqui lendo que eu preciso falar com a sua mãe! Se quiser pode desenhar naqueles papéis, mas não mexa em mais nada!” Ela o abraçou forte e foi desenhar, gostava quando ele deixava isso acontecer.
Ficou sozinha por bastante tempo, não sabia ainda as horas muito bem, mas já estava aprendendo os minutos. Depois ele chegou e lhe deu um beijo, disse para ela ir dormir que amanha iria acordar cedo. Quando ela chegou no quarto a sua mãe chorava, ela não entendeu, até perguntou, mas sua mãe nada respondeu.
No outro dia Lurdes se levantou cedo, adora acordar cedo, dava para brincar no jardim com o sô Jesuíno, ele era velho e falava muitas coisas sobre plantas, que cada uma nascia dependendo da lua. Quando ela foi para a cozinha tomar café sua mãe estava arrumando a mesa, estava com um sorriso no rosto, era tão bonita, só que ela dizia que era mulher sofrida, aprendeu desde cedo a trabalhar cedo e ajudar no sustento da família.
Sua mãe disse pra ela não ir brincar na terra que ela precisava contar uma coisa importante, ela e o Sr. Durval. Ela comeu avidamente e se satisfez depois de uma rosquinha de queijo. Por fim se levantou e foi lavar a mão. “Vamos menina, ande logo, venha comigo, ele está a nossa espera.” Chegaram na sala e o Sr. Durval estava sentando com os olhos fechados. As duas se sentaram, ele pediu para que Lurdes fosse para a sua perna e lhe dar um abraço. “Você gostaria de ter um pai Lurdes?” “Claro, eu tenho um pai, só não sei onde ele está. Ás vezes brinco que o senhor é meu pai” ela disse enrubescida. “E se eu fosse o seu pai?” “Ah, iria ser perfeito, a mãe que eu amo e o pai que eu amo. Também amo a Dona Lucia, mas amo o senhor mais.” “Menina!” “Deixe ela falar Marta, deixe a menina falar!” A mãe de Lurdes estava vermelha, não sabia o que dizer. “Então, eu sou o seu pai agora. De papel passado e tudo! Vou mandar decorar um quarto para você no segundo andar, vai ser seu e da sua mãe.” Marta se levantou “Não combinamos isso Durval!” “Você não vai morar com nossa filha no quarto de empregados, e nem ela vai ficar sozinha lá em cima! Aceite isso Marta, larga de ser tão teimosa!” “E Dona Lucia? Você não tem consideração?” “Isso é outro assunto. Você sabe que ela está em fase terminal. Eu sempre a amei mas…” Lurdes não estava entendendo aquela conversa, estava tão feliz, agora tinha um quarto pra ela e a mãe dela na parte de cima da casa, e ainda tinha um pai! Ela não poderia ficar mais feliz, só se sentia triste por Dona Lucia, que não poderia compartilhar da alegria, estava tão doentinha tadinha! Ela deu um beijo no rosto de seu “novo” pai e de sua mãe. Depois saiu pela sala pulando de alegria, mal podia esperar para contar pra sô Jesuíno, ele iria gostar de ver ela feliz, dizia para não escutar o que aquelas crianças riquinhas diziam dela, que “bastarda” era palavra feia para crianças tão novinhas! “O mundo está perdido Lurdes, ai de nós, ai de nós!” Ele vivia dizendo e cuidando das flores com tanto carinho, como se até fosse gente.
Lurdes foi para escola com roupas novas, estava tão feliz, foi até no carro de seu novo pai, Durval, não podia ficar melhor.
Chegou na escola e desceu do carro toda serelepe, feliz da vida. Só ficava triste por aquelas crianças que como dizia sô Jesuíno “Estavam perdidas.” Ela se sentou na mesa de sempre, abriu seu caderno e foi desfrutar do conhecimento. A professora a estava tratando melhor, estava lhe dando sorrisos, ela estranho. Depois na hora do intervalo umas meninas a veio chamar para brincar, ela não foi, já estava acostumada com seu lugar “das fadas” e ficou sozinha, sabia que crianças mesmo como ela já eram ruins, e não iria mudar, ela preferia ficar sozinha do que com elas. Crianças bobas que perderam uma boa amiga e como diz a pequena Lurdes “Ai delas, ai delas.”
