Naquela casa, construída na antiga rua Quatro, que hoje tem o nome de algum fazendeiro da região, já falecido, mas que foi vereador por dois ou três mandatos, foi construída a casa de minha avó Maristela, em 1951.
O meu avô havia trocado dois sacos de feijão pelo terreno e então, com a ajuda dos irmãos, que poucos não eram, fizeram um mutirão e levantaram tijolo por tijolo. Hoje não se faz mais isso, nem com reza braba. Aliás, não será que ainda se fazem quatorze filhos como se fazia antes?
Voltando a casa de minha avó, lá na entrada havia um alpendre, com chão feito de cacos de piso e com fundo em vermelho. Ela lavava com água da mangueira e depois encerava, tudo ficava brilhando. Eu deitava naquele chão frio e olhava para as nuvens, sentia a brisa arrepiar os cabelos dos meus braços e imaginava formas no céu. Um jacaré, um coelho e um macaco. Lá longe é um homem de chapéu e ao lado uma mulher de costas. Quando me canso do frio e das formas, volto para dentro de casa, onde há um sofá novo. Minha avó não gosta que eu me deite nele, porque o mancho de vermelho.
Vermelho, da mesma cor do sangue que saiu quando corri no chão molhado, escorreguei e enfiei o pé por debaixo da fresta da porta. Na hora de puxar a minha unha ficou. Gritei tanto. Ainda me lembro do fantasma da dor. Aliás, sempre que me lembro, eu contraio os dedos dos pés e ouço um estralo satisfatório.
Eu tinha uma tia que morava com a minha avó, na minha meninice nunca havia entendido o motivo dessa tia ser chamada de “ficou para titia” ou “beata”, era uma tia boazinha, que ralhava conosco quando gritávamos alto ou pulávamos na cama. Tia Lia, o nome dela. Andava de um jeito engraçado, porque tinha uma perna torta, atrofiada. Às vezes ela batia palmas para a televisão e dizia que estavam nos escutando. Um dia minha mãe brigou comigo porque eu havia corrido na rua, ela ralhou, dizendo “Se o carro te pega, você fica igual a sua tia Lia! Já não basta a sua avó ter enterrado o seu umbigo no quintal?”, eu não entendi qual a relação das duas coisas. Hoje eu entendo.
Ah, como era cheia a casa da minha avó. O cheiro de bolo ou de bolinho de chuva. Cheiro de café era sempre. Barulho da máquina de costura funcionando ou da panela de pressão chiando. O som dos pássaros no pé de acerola no quintal, a televisão ligada na novela das nove.
Na minha casa não tem alpendre, não tem telhado de barro, não tem chão com pedaços de pisos e fundo vermelho. Na minha casa não tem cheiro de bolinho de chuva, mas às vezes tem cheiro de bolo. Café só de manhã. Na minha casa não tem vó e nem tia Lia. Não tem gritos de crianças, não tem cacofonia de pássaros.
Agora percebo, a alma da casa são os outros.

