Fragmentos



02/10/2026
Agora são umas nove da manhã, e ainda sinto o meu pescoço travado e as minhas costas doerem. Quando eu tinha uns oito anos dormia com o corpo para cima, as mãos no peito, na única posição que me agradava, mas sempre que eu juntava as mãos, me lembrava de um cadáver em um velório e isso me enchia de medo. Agora, que já não tenho medo e posso dormir da forma que eu quiser, acordo cheia de dores, o corpo travado, as articulações rangendo. É isso que envelhecer significa: sinais de que somos finitos.


23/10/2020
Me ajoelho ao lado da cama e imploro, exijo, explico e até mesmo negocio: Deus, não leve o meu pai, ele não merece. Deus, por favor, me leve no lugar dele, eu não valho nada, ele sim. Deus, por que o Senhor está fazendo isso? Por que? Por que? O meu corpo dói, o meu coração arde, o meu estômago se revira. Olho as mensagens do grupo de orações que alguém fez e vejo uma mensagem “pra que ficar enrolando, gente? é só falar, o César morreu! Ele já morreu!”, e então eu grito.


16/06/2001
Estávamos rodando naqueles brinquedos de metal, que havia em parquinhos, quando olhei para o céu todo borrado e sinto a liberdade em meu corpo. Era uma viagem de família, estávamos em uma pousada bonitinha. Quando mamãe disse que iríamos para a praia, ficamos eufóricos. Eu rodava e rodava, até que olhei para o lado e vi o meu irmãozinho gritar. Ele soltou as mãozinhas e voou. Ouvi apenas o barulho seco de sua cabecinha bater no chão: crec.


19/06/2001
A porta do quarto do Pedro ficou fechada desde que voltamos daquele lugar fedido à flores. Mamãe não me deixou ir onde quem morre se deita para sempre. Fiquei sozinha com a tia Maria. Agora eu olho para os dois, papai e mamãe e observo eles olharem para longe. Ninguém fala nada, nem o Babalaô late. Parece noite, quando está todo mundo dormindo e eu acordo para ir ao banheiro, apenas o silêncio.


07/04/2025

Hoje, quando eu estava lá, sentada na praia, sentindo a areia entre os dedos, me lembrei de quando éramos crianças e eu odiava vir para a praia. O meu pai me levava bem longe da parte rasa e dizia que iria me segurar, então me soltava e me deixava sozinha. Me lembrei do meu irmão pulando as ondas, da minha mãe mergulhando. A minha mãe não quis vir conosco dessa vez, o meu irmão se casou e não tem tempo para nada e o meu pai? O meu pai nunca mais vai nadar. Fiquei sentindo saudades de quando ele me deixava lá, sozinha, no meio do mar, mas ainda próximo, gritando comigo. Agora eu estou sozinha aqui, olhando as ondas se quebrarem e não consigo nem me lembrar mais de como era a voz dele aos gritos.


Deixe um comentário

Descubra mais sobre Ester Lima

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo