Conforme eu andava, sentia que o frio se infiltrava através das solas de meus pés e subindo, rumo ao meu peito.
Aquele dia estava por acabar, eu iria chegar ao meu objetivo e fecharia a última porta da minha vida. A minha e a dela.
O chão úmido aumentava o frio da noite e deixava marcas por onde eu passei. Queria eu ter uma câmera e fotografar naquele instante, mas de que adiantaria? Para onde eu estava indo não precisaria de fotos, ou câmeras. Ou nada.
Vi uma foto de minha tia ao meu lado, algum estranho havia tirado anos atrás. Me lembrei da risada dela e então, de uma reprimenda:
“A minha anja da guarda, luta para me manter vivo.”, falei para minha tia.
“Anjos não tem sexo, Paulo, deixa de besteira!”, ela me repreendeu e dei uma risada.
“Então como novos anjinhos nascem?”, ela me deu um tapa na nuca de dedos abertos que fez uma dor latejante surgir em minhas têmporas.
“Aí, tia Dina!”, esfreguei o local atingido e saí de perto.
Isso havia acontecido há dois dias, no mesmo dia em que eu havia concordado em fazer parte de um ritual para enriquecimento. Dois dias haviam se passado e o ritual havia acontecido hoje mais cedo.
O que não dizem a respeito de rituais é que eles são reais, não é uma desculpa para transar. É verdadeiro, é caro. Você invoca algo e esse algo exigirá um pagamento.
O pagamento pelo meu desejo havia sido grande demais. Senti as lágrimas caindo e um soluço preso na garganta.
Parei e encarei o corredor, que terminou em uma porta de madeira fechada, coloquei a mão na maçaneta. Eu quase nunca entrava nesse quarto, não havia necessidade.
“Anjo da guarda”, sussurrei, pela enésima vez. Senti as lágrimas salgadas entrando na minha boca.
“Eu te imploro, me tira desse contrato. Se não por mim, pela minha tia!”, murmurei em meio ao soluço.
Senti um arrepio subindo pelo meu braço esquerdo, onde eu tinha amarrado um esparadrapo. O corte latejava como se estivesse sendo cortado com cacos de vidro. Apertei a mão até que a dor me cegasse. Deixei que a calma invadisse o meu corpo.
“Me ajuda!”, sussurrei. Eu não poderia acorda-la. Eu não queria ver o seu rosto, a sua decepção. O seu medo. “Por favor, se há o céu, me ajuda!”
Uma pontada em meu estômago me levou de volta para aquele dia mais cedo.
Eu estava rindo, inebriado pela beleza da mulher na minha frente. Pelo cheiro, pela penumbra, pela música instrumental.
Ela me olhava expectante.
“Quero ser rico, conhecido pelas minhas fotografias, desejado e admirado!”, confessei. Marcela riu com o meu desejo.
“Você está trocando um sacrifício por isso? Tem certeza que não quer mudar?”, os olhos dela pareciam brilhar à luz de velas.
A chama crepitante deixava tudo mais emocionante.
“Sim, eu só quero isso.”, ritual, quanta bobagem essas pessoas fazem hoje em dia.
“Tudo bem, precisamos de três coisas: sangue, sêmen e suor.”, ela começou a tirar a roupa e engoli em seco. Sim, Marcela era uma mulher atraente, mas nunca tivemos nada. Até agora. O que nós homens não fazemos por causa de uma mulher.
Voltei novamente daquela lembrança, de ter tirado uma foto para recordar, de ter dançado com ela, nu, com o corpo cheio de suor, de sangue e sêmen. De seus olhos negros e seu sorriso largo. Do rasgo que houve no canto de sua boca com a força de sua risada. Do sangue escorrendo. Da sua voz profunda, rouca e estranha.
“Mais sangue, mais sangue!”, ela sussurrava enquanto me cavalgava. Eu ria, inebriado.
“Feito! Quero a vida de quem você mais ama.”, ela murmurou antes de me morder e mastigar um pedaço de minha carne. A empurrei e sai correndo, ouvindo a sua risada rouca. Apertei o antebraço que sangrava sem parar.
“Você é louca?”, gritei em meio a dor.
Ela lambeu os lábios e engoliu a carne.
“Você tem até às 3h! Eu vou, eu vou, eu vou te encontrar!”, ela cantou em um grito melodioso.
Senti as feridas arderem. Eu não deveria ter aceito um convite de uma quase desconhecida.
Corri ao mesmo tempo em que me vestia. Saí pelo portão que dava para a rua e parei por um instante.
“Sangue!”, um homem me segurou pelo ombro e sussurrou, com os olhos negros sorrindo para mim. Me observou ao mesmo tempo em que levou o braço na boca e mordeu, arrancando carne e sangue. Mastigando. Engolindo.
Senti o vômito antes de me abaixar.
Ele riu, até que alguém gritou. Corri pelas calçadas, desviando de pessoas passando a mão em meu corpo.
Cheguei ao subsolo e entrei no vagão parado. Sentei e fechei os olhos, sentindo o azedume na língua, o estômago embrulhado, o frio no peito. Eu iria me cagar todo. Puta que pariu.
“Estou com fome, Paulo. Você não quer me deixar com fome.”, uma senhorinha sussurrou para mim, ao meu lado, dentro do metrô.
“Eu não concordei com nada, sou católico!”, gritei, até que as outras pessoas me olharam com reprovava. Ela riu, arrancou a dentadura e colocou em minha mão ferida.
“Se você não fizer, outro irá fazer, mas antes irá desfrutar da carne. Estou com fome!”, as gengivas vermelhas e a língua grossa se aproximou de mim ao mesmo tempo em que ela me puxou e enfiou a língua na minha boca.
A empurrei, ouvi a cabeça dela bater na janela de vidro. Uma mulher gritou e correu até nós.
A velha riu, limpando a saliva que caiu em seu queixo enrugado.
“3h horas da manhã, Paulo, se não for você, será outro. O pagamento será feito.”
Corri para longe dela, sentindo os meus braços tremerem.
“Ei, cara, desculpa te perguntar, mas você é o Paulo Teles? Aquele fotógrafo?”, olhei para o rapaz que me parou, sentindo uma inquietação no meu corpo.
Temi dizer que sim, era eu.
“Sou seu fã, cara! Nossa, dois milhões de seguidores, que incrível! Parabéns, as suas fotos são ótimas.”, sai de perto dele, me esquivando da multidão. Do que ele estava falando? Peguei o celular no bolso e entrei na minha conta de fotógrafo. Senti a bile encher a minha boca. Ele havia errado, não eram dois milhões, eram oito. Hoje cedo eu tinha cento e noventa e sete seguidores.
Ouvi uma risada ao meu lado.
“Estou com fome, Paulo, mas se você não conseguir, eu irei assim mesmo.”
Um homem, andarilho, apertou as partes íntimas e sorriu para mim. Os olhos negros me encaravam e o tremor em meu corpo aumentou.
Corri, corri até não conseguir ver mais ninguém.
Passei pela porta de uma igreja e a abri. Havia um padre no altar.
“Me ajuda!”, gritei. Ele continuou distante, sem me ouvir. Dei um passo em direção a parte interna da igreja, mas a minha perna travou.
Outra risada.
Corri. Dessa vez fui para casa. Em frente ao portão estava um homem, ele sorria para mim e apertava o pau, que estava marcado na bermuda de tactel preta.
“Estou louco para entrar, Paulo. Soube que tem um banquete aí dentro. Alma pura.” Ele riu e gemeu.
Vomitei outra vez, sujando a porta de casa e fechei o portão na cara dele.
Voltei das minhas memórias, encarando a porta de madeira. Apertei a faca, girei a maçaneta e entrei. Seríamos nós dois, em uma viagem só de ida, tia Dina.
