Os olhos abertos encaravam o nada, deixando a janela da alma desprotegida para as moscas verdes pousarem e colocarem suas larvas. O zumbido era ensurdecedor, não havia para onde ir, com paredes de concreto próximas se fechando ao seu redor. Havia dez dias que ela estava ali, presa com ele, aquele que, antes de fazer a passagem, a atacou com dedos gordos e sebosos. Ela se lembrou de o empurrar e gritar, mas nenhuma clemência fora dada e nenhum socorro surgiu. Observar a forma grande ser consumida por moscas e larvas a fazia gargalhar em meio ao cheiro pútrido que pesava o ambiente. Ela havia parado de gritar dias atrás, quando bateu no vidro que a separava dos homens que a observavam. Ela havia pedido “ao menos retirem o corpo”, mas a encararam em silêncio, observando a sua roupa rasgada, os seus braços finos, o seu cabelo sujo. Ela havia empurrado o corpo para perto da única janela que havia no cômodo, a única fonte de luz e ar. Não adiantou, mas isso a deixou sozinha do outro lado, com um pano preso no rosto, sentada contra a parede.
Onze dias. Onze dias que ela estava presa naquele prédio desconhecido sem que ninguém soubesse para onde havia ido. Aceitar um subemprego não era novidade, afinal, ela cresceu limpando privadas, lavando vômitos, varrendo ruas, aspirando pó, lavando roupas e abaixando a cabeça para os senhores da casa. Ela estava acostumada com o trabalho duro, estava acostumada com o desconforto. Era no que ela um dia acreditou. Agora, ela observava os olhos abertos, a ferida na cabeça com sangue seco e as larvas se remexendo no corpo. Os homens do outro lado a observavam, não o tempo todo, alguns iam e vinham. Jogavam um pacote fechado com barras de cereais e a faziam beber água da pia.
Com os olhos fechados, tentando não puxar a respiração rápido, ela passou entre o sono de agora e o sonho de ontem. Samanta, Samanta, Samanta… ouviu a voz do seu marido sussurrar. Quando ele a conheceu, dizia: “Você é como ouro no meio das piritas.” Ela sorria. Samanta, Samanta, Samanta. O seu nome ecoava alto em meio à névoa do sono, até que ela abriu os olhos.
“Se você conseguir chegar até a saída, pode ir embora”, a voz de uma mulher a fez se levantar o mais rápido que conseguiu, mesmo que estivesse com uma costela possivelmente quebrada e o corpo todo dolorido.
Ela olhou o cadáver e sorriu. Ela já estava morta, não estava?
“Tudo bem”, ela sussurrou, sentindo a garganta em carne viva.
Ela olhou para o vidro e correu.
As portas eram de ferro e estavam todas fechadas. Ela tentou empurrar com a mão, entretanto, o peso era mais do que a sua força, então, com muito esforço, empurrou com o ombro, até que ouviu o rangido das dobradiças. Empurrou, sentindo a costela latejar e o corpo na coxa se abrir. Ela iria sair dali, iria.
Jogando o corpo contra o painel, sentiu a porta se abrir e o seu corpo colidindo com o chão. A pontada no flanco tirou o seu ar e as lágrimas caíram, embaçando a visão. Se levantou, cambaleando, até conseguir absorver o seu redor. A luz iluminava o ambiente espaçoso, de um lado havia macas e do outro, mesas de inox. Um corpo pequeno estava em uma das mesas, ela sentiu a bile encher a sua boca, entretanto, deu a volta, até conseguir sair por outra porta mais à frente.
“Sami, estamos sem dinheiro… será que você pode aceitar um trabalho de um conhecido? Ele paga bem!”, ela ouviu a voz do marido dizer. Seu corpo se retesou ao ouvir vozes atrás de si, que gritavam o seu nome em um coro grave. Correu, sentindo a ferida de sua perna latejar e a sua costela arder. Passou por vários corredores, até que, por fim, viu um portão. Ali era a saída.
Cambaleando, segurou a parede, sentindo a aspereza dos tijolinhos arranharem as suas mãos, continuou, passo por passo, até que, por fim, passou pelo portão. Estaria livre. Uma voz, saindo de um alto-falante, disse:
“Ela é a sua saída, Dani.”
E então ela viu um homem ferido do lado oposto. Ele a olhou, com os olhos arregalados, e correu em sua direção.

Uma resposta para “Ratos também sonham.”
Inquietante é uma palavra boa para definir. Mais um conto excelente, envolvente e que deixa bem desconfortável durante a leitura.