A 100km/hr sentindo o vento.

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Parei ao lado do carro e senti uma fisgada na região entre a boca do estômago e o esôfago. O carro era tão grande e eu era tão pequena que eu não iria conseguir dirigir e eu iria morrer. O medo veio sem freio e um respiro entrecortado surgiu de meus lábios. Eu era tão pequena e o carro era tão grande.

Abri a porta e entrei. Eu já dirigia há mais de três anos todos os dias e nunca havia acontecido nada, mas às vezes eu olhava o carro e sentia como se eu não fosse possível tirá-lo do lugar, e eu não fosse capaz de dirigi-lo. E então eu entrava, ligava e estava dirigindo sem rumo, sem pensar e esquecia que estava no controle, com os pés nos pedais, as mãos no volante e no câmbio. E eu dirigia e esquecia do meu corpo humano e da minha limitação.

Alguém buzina e volto ao meu corpo. Droga, quase matei aquele ciclista. Não, eu não quase matei o ciclista, mas por muitas vezes eu me vejo matando, um medo irreal da minha capacidade destrutiva. E então, eu estaciono e sinto a satisfação de sair de um lugar e chegar a outro. É o meu poder. É a minha capacidade de dominação maior que eu. É o meu carro.

O carro é tão grande e eu sou tão pequena. As chaves? São minhas.

Foto: Sander Breneman


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