A arte nunca morre.

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O lugar era um moquifo. Bati na porta três vezes como se pede o costume. Nada. O silêncio era ensurdecedor, quando bati na porta uma quarta vez ela se abriu com um chiado alto que rasgou a solidão. A luz do sol entrava pela janela e iluminava o quarto em algumas partes. Uma mesa no canto estava velha e gasta, em cima dela havia tintas de várias cores. Azul, amarelo, verde, cinza, gelo, turquesa, amora. Um pincel com as pontas secas e velhas. Na cadeira havia um quadro grande todo pintado, mas no meio dele havia um buraco e do buraco nada se via. Assim que entrei mais adiante o cheiro de podre me socou o estômago.
– Por Deus! – Fiquei tonto e cobri a boca. O que era aquilo? A cama estava bagunçada com um lençol enrolado em algo, fui verificar. Minha curiosidade é maior do que meu bom senso, devo confessar, por mais constrangedor que seja. Oh Deus! Será que meus olhos míopes me enganam? Um bebê enrolado naquele lençol sujo e naquele quarto podre. O cheiro estava mais forte. O bebê dormia tranquilamente, seu peito subia e descia. O peguei com meus braços enormes, com minha força bruta. Como é leve essa criança. Ele remexeu, mas não despertou. Havia um canto escuro no quarto, não chegava aos raios de luz.
Um pé, vários dedos, uma perna.
– Diabos. – Uma mulher, morta. O corpo fedia, bichos comiam sua carne, vermes, baratas, ratos.
– Mas como? Como? – Meu corpo tremia, meu estômago revirou e revirou. Segurei o bebê com cuidado, eu não iria vomitar, não agora.
– Mas como você sobreviveu? Para o corpo estar assim em outono ela deve estar morta no mínimo uns sete dias. Você está vivo e aparentemente saudável.
O bebê não respondeu, abriu os olhos. Os olhos. Deus, os olhos eram brancos, não havia nada ali. Nada.
– Não devia ter me acordado. – Minha mente falou. Mas não foi eu quem disse. A voz era minha, mas eu não pensei nisso. O bebê se mexeu e remexeu até que caiu do meu colo. Seu corpo cresceu, cresceu e virou luz. Já não havia nada mais lá, o bebê sumiu. No seu lugar apareceu uma sombra que se arrastava. Uma sombra branca.
A mulher morta abriu os olhos e aqueles olhos murchos e sem vida me olharam pesarosos. Com pena.
Ele pulou em mim, entrou em mim. Sua luz branca me consumiu. Rasgou minha pele, partiu os meus ossos, comprimiu o meu corpo. Me prendeu ao quadro.
– O que eu fiz?
–  Acordou o tempo.
– O que eu fiz? – Eu gritei, cego, gritei. Ninguém me ouvia. Fiquei preso, preso. Amarrado. Preso. Enlouqueci.
A mulher se foi. Os bichos se foram, chegaram novas pessoas. Faz tanto tempo que até me esqueci o motivo de ter vindo ver ela. Qual mesmo? Ah, lembrei. Comprar suas pinturas.
O tempo parou. Parou para mim.

Ester Sousa.


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