A espada de Arthur cravejada no meu peito. 


Sentia em teus braços o calor do corpo pequeno corpo que quando dormia deixava os pequenos lábios fechados, ora abria e chorava, ora ressonava. O perfume subia em suas narinas como uma doce nuvem quente com cheiro de lavanda e camomila. O peito, tão grande o peito que doía. Estava cheio e transbordava em amargor, um veneno represado que passado o tempo ficou coalho. 

– Você está bem Kátia? – Olhou atordoada para todos os lados, tão ligada às memórias que se esqueceu onde estava. Uma mão áspera veio até seu rosto e limpou , lágrimas. 

– Estou. 

– Você chora. 

– Não percebi, um bocejo e já logo lacrimejo. – Mas os olhos que não sabiam mentir logo mais vazaram toda aquela extensão de dor. 

– Venha, sente-se. – E tudo o que ela via enquanto sentava eram os pequenos olhos negros. 

– Estou bem, foi só o tempo. – E a culpa recaiu toda no tempo, que apesar de passado não levou consigo a dor, deixou pra trás um peso no coração em forma de lembranças e dor. 

– E dizem que o tempo nos tira tudo né? – O homem riu. 

– Quem nos tira tudo são os próprios homens. 

Kátia agora não chorava, mas sentia o cheiro no ar, nesse momento ela queria subir junto com o cheiro, subir como uma fumaça quente e dissipar na atmosfera. O corpo era carne e a carne era pesada, nem a água nem o fogo, só o tempo. 


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