A grama do vizinho, orvalhada e brilhante,
era tão verde, tão bela e desejosa, que fazia o meu estômago revirar. Eu olhava a minha, marrom, amarelada e pisoteada,
em partes, cheia de buracos e em outras, lamacenta.
No meu vizinho era um zum-zum-zum o dia inteiro,
do meu lado era a cigarra esgoelando, urrando e berrando.
Podia, será que eu realmente podia, pular para o outro lado e pisar naquele espaço verdejante, nem que seja um pouquinho?
Às vezes, eu o olhava de longe, com os dentes arregalados e me dava um arrepio. Como ele ousava, me mostrar todos os dentes em um sorriso, sabendo e percebendo, o quanto a minha grama era feia, compacta, lamacenta, amarronzada e esburacada.
“Pare de rir para mim!“, Gritei. Gritei para baixo, gritei em 20 decibéis.
Ele andava devagar, aos poucos, curvados.
Aposto que ele estava cheirando o suave aroma da grama verde, fresca e brilhante.
Andava tão mansamente, para aproveitar a maciez das folhas.
Deixe, deixe. Deixe!
Gritei-sussurrei, em 20 decibéis.
Era noite, aproveitei os gritos da cigarras e o cantarolar dos grilos. Hoje eu faria isso, pularia do outro lado e daquela grama verde, a grama do vizinho, eu sentiria. Eu pisaria!
Cheguei próximo a cerca, tentei cheiras o ar, mas tudo o que vinha era o cheiro de ferro. Não importa, eu iria fazer isso. Eu iria mesmo!
Coloquei a mão na madeira e me icei no ar.
Pulei!
Os gritos de meu peito, ofuscado pelo canto noturno, deixou disfarçado, a dor.
A grama do vizinho era verde, com folhas de espeto. A grama era feita de espinhos.
Furou o meu pé, sangrou o orgulho.
