Há uma mulher gritando loucamente.
Ela corre e eu atrás dela.
— Alguém ajuda, não estão vendo que há uma louca solta?
Ninguém vem. Ninguém nos vê.
Eu olho ela longe, onde o escuro a abraça, a fumaça a cerca. O frio está cortante, ela nua, dança, ri e canta.
Eu corro até ela. Ela não me vê, se vê não faz questão.
Eu procuro por toda parte, nessa rua escura, com janelas iluminadas pelas luzes internas.
Eu procuro alguém, além de mim e ela.
— Aceita café?
— O que?
Eu continuo seguindo as risadas delirantes. Como podem não nos ver? Ela está perdida e estou.
Por que diabos iria querer café? É o frio? O escuro?
Não se deve tomar café na penumbra. Pode queimar a língua.
A mulher dança e sorri.
A mulher dança e vem até mim.
A mulher me beija, deixa a saliva escorrer entre meus dentes, meus lábios, meus seios.
Estou me afogando, afogando.
Ela se foi.
No fim só estou eu e aquela que me olha.
Venha passarinha, venha até mim.
— Prefere chá?
— Prefiro.
