– Antooooooonio, vai lá ó, tão batendo lá no portão ó.
– Qual é mãe, tô estudando.
– Estudando o que moleque, vai abrir o portão. Você só fica no vídeo game, preguiçoso. Na hora de me ajudar resolve estudar. – A mulher continuou varrendo o chão. No sofá estava sentado um homem carrancudo, olhava para a TV Ligar, mas não assistia nada.
– É um mendigo pedindo um copo de água. – O rapaz alto e magro veio correndo.
– Dê a água ao homem criatura! – A mulher já ia arrumando um pedaço de pão e qualquer outra coisa.
– Não vai dar nada para vagabundo nenhum não.
– Que isso Roberto, é um mendigo.
– Um mendigo o que? – O homem falou algo e ríspido, sem tirar os olhos da TV. – É um vagabundo! Não vai dar água nenhuma pra vagabundo! – Nesse momento ele olhou rapidamente para a mulher e o rapaz e cuspiu no chão onde ela havia limpado.
O rapaz envergonhado pela atitude do pai foi até o portão pedir desculpas ao velho mendigo. A mulher se sentindo humilhada limpou novamente o chão.
Anos depois o rapaz havia crescido e se formado, já havia construído sua própria família e vivia em paz consigo mesmo.
– Antônio? Meu filho? É seu pai, acho que ele está morrendo. – A velha mulher tinha a voz trêmula.
– Marta me dê água. – o homem rolava no chão tudo molhado, envolta de si estava uma enorme poça de urina.
– Eu já dei quase um balde Roberto.
– Mais Marta, me dê mais! – Ela deu uma garrafa, ele virou de uma só vez.
A maldição dele havia sido de morrer de sede e urinando. Morreria tal como viveu, seco.
O que ele bebia de água ele urinava. Sua sede nunca tinha fim. De tanto urinar o que havia bebido ele secou ao ponto de sobrar a pele e os ossos.
– Me dê água Marta – Foi o que ele disse para a mulher que conservava um pano na cabeça.
– Aqui em casa não se dá água pra vagabundo – Disse ela o olhando. Mas o homem já havia morrido em sua sede e em sua urina.
Morreu seco dentro de sua maldade.
Bem que minha avó dizia, negar água e comida aos outros é pecado.
