Hoje é um dia frio. Todos os dias tem sido frios. Nada de diferente, o clima e tudo mesmo. Me sinto hostil.
– Você devia começar a fumar. – Nada, nada dentro de mim vai ficar mais quente. A música é a mesma, os livros são os mesmos. Até teu beijo já não diz nada.
– Tudo bem, me dê um. – Nem isso. Nada me deixa bem.
– Só não vicie, estou alimentando as indústrias de tabaco há anos. – Sorri, mas sem vontade. Não vejo vontade. Nada.
Joguei a fumaça nela, a pele tão branca. Às vezes me dá vontade de cortar aquele corpo todo, só pra ver saindo o sangue vivo. Será que cor? Azul? Ela parece ter sangue azul. Me vejo a fodendo de milhões de forma, e em todas nelas nós estamos banhados com seu sangue. Só isso me dá vontade. Sou louco?
– Tenho que ir.
– Tão cedo.
– É. – Antes que eu sentisse qualquer outra vontade eu fui. Senti frio, tão frio.
Joguei o cigarro fora. Por que assim?
Ah Orfeu, nunca devia ter cantado pra mim.
Os dias são os mesmos, todos dias sem fim.
Ester Sousa.
