Todos os dias ela gritava exatamente às 19h.
Era um grito de angústia, de raiva e ao mesmo tempo de liberdade. Não se sabia o motivo do grito e ninguém nunca perguntou diretamente a ela. Sempre se achou falta de educação perguntar a respeito dos distúrbios alheios. Bem, se é que era distúrbio e se formos considerar isso como distúrbio.
Não há diagnósticos nos sentimentos, porque são isso, sentimentos. E sentimentos vem sem manuais ou etiquetas. É uma dificuldade terrível se dizer se são ou não sentimentos.
Acaba que Grito – esse era o nome dela – era só mais uma mulher corajosa que gritava sempre às 19h ao invés de, por exemplo, beber uma cachaça ou fumar um cigarro.
Os que viviam ao redor, sempre questionavam a loucura dela e havia até um ou outro que tinha vontade de chamar a polícia. Entretanto não fora preciso, uma vez que o grito de Grito ia se esvaindo com o tempo.
No início era forte, era doloroso, era potente, era poderoso. Mas no fim, se tornou um sussurro, um suplício.
Grito já não gritava mais, só olhava para o nada e suspirava.
Será que cansou? Será que acabou?
O grito de Grito era só um estopim para aquilo que ela não entendia ou queria.
Era só mais um grito, um meio para o fim.
Todos os dias eu gritava, exatamente às 19h.
