As dores que o tempo deixou nas minhas juntas. 


Sentou numa cadeira e fumou. Sempre odiou o cheiro do cigarro, o sabor. Já que estava sozinho aproveitou cada fumaça. Uma regalia. Os lábios escuros, dentes amarelos, gengivas roxas. Um luxo! Se dissessem para ele que um dia fumaria ele iria rir. Diria “Baita mentira”, mas não era. Coração estava preto, pulmão não funciona direito, tosses catarrentas, uma solidão que só. 

– Canta uma música pra mim! – Riu, que pedido sem senso, estava sozinho. 

– “Olha meu amor, você está sozinho…” – alguém cantou. Que calafrio, quem era? Ali naquela caixa estava só ele. Seria um fantasma? Mas que fantasma de voz doce. 

– Quem é? – Dessa vez apenas o silêncio, ou melhor, a ausência de som. Sua mente já não era mais a mesma, estava lhe pregando uma peça. 

– Senhor Carlos?! Fumando escondido?? Que fantasma mais sem noção. 

– Some diabo! – Mas não era assombração, era real. E ela não foi embora. 

– Vamos senhor Carlos, está na hora de tomar seus remédios! 

– Me deixa estrupício! Tô morrendo mesmo! Remédio é pra quem sabe que vai ficar vivo! – Antes que lhe pegassem o cigarro, deu uma última tragada. Ah, que nojo esse vício, mas não tem melhor. Se tem é mulher cheirosa. 


2 respostas para “As dores que o tempo deixou nas minhas juntas. ”

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