Lembro da minha infância, exatamente num sábado cedo a minha avó me sentou ao seu lado e disse:
Agora nós vamos aprender a juntar os retalhos para se tornar uma linda colcha.
E assim, retalho por retalho nós costumamos e juntamos atende tornar uma linda colcha colorida. Cheia de vida, confortável, quente, invejável. Os meus dedos pequenos ficaram doloridos, cada vez que a agulha entrou e tirou sangue, mas no fim eu fui recompensada, a colcha era minha.
Hoje, sentada no chão, rodeada de bitucas de cigarro eu me sinto em fagalhos, sem força para chorar, levantar e me remendar. Quem vai juntar os meus trapos e me costurar?
Meu coração já não bate tanto, antes mocinha, agora mulher. O que sou? Quem sou?
Minha vó já se foi, há tempos ando sozinha, perambulando pelas noite, fumando pelos becos e dançando sem vontade.
Meu coração já não é o mesmo, ele está despedaçado.
Levanto, abro a janela e olho pra baixo. Às árvores, o vento, as pessoas.
O mundo não para, ninguém para, jogados de um lado ao outro em busca de respostas.
Buscando algo invisível aos olhos e desejado pelo coração.
O que eu desejo? Me pergunto, mas essa pergunta está longe de ser respondida.
Volto a fumar e olhar ao céu, será que além dele, além das estrelas, além do sol, dos planetas, das galáxias há outro lugar?
Deixo a fumaça subir e buscar suas próprias respostas.
Ainda sim, continuo em fagalhos.
