Correntes de mim.


Quando criança fazíamos, na escola, várias dobras em um papel A4 e depois de recortada se abria e ali teria uma sequência de bonequinhos.

Hoje eu me sinto assim, um bonequinho de papel fechado que quando se abre são vários.

Também sinto que o tempo é assim comigo, uma sequência de bonequinhos e quando se fecha sou eu, no aqui e agora.

Há dias, como hoje, em que acordo sem vontade de fazer nada, apenas parar e existir. O sono me cerca, mas não é um sono cansado, é um sono desanimado e eu sou especialista em dormir.

É como se as primeiras horas da manhã fossem primordiais para me recarregar e se eu as perco já me perco também.

Ainda sou criança, com o cobertor sendo puxado e arrastado. Estou sentada no sofá, assistindo ao desenho animado.

Agora sou adulta, e choro, choro e choro.

Não vá! Eu grito. Mas mesmo assim o caixão desce e é enterrado.

E se alguém cortar a sequência de bonequinhos? Como fica? Bonequinhos ao acaso, eu já não seria eu e estaria totalmente fragmentada.

O tempo não corta, não diminui, só aumenta.

Acho que hoje chove.

Bom para dormir e para ler.


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