Corri atrás de ti até não saber mais onde estávamos naquela linha do tempo.


Os olhos ardiam conforme as horas passavam, os ponteiros do relógio rodavam dentro dos globos oculares, marcando os segundos, minutos e horas. A cada piscada um milésimo de segundo se passava, indicando naqueles micros índices das írises escuras. As pessoas observavam os seus olhos e isso te irrita. E você pisca. E alguém, ousado, perguntava “que horas são?”, como se houvesse um espelho interno que mostrava os relógios dos olhos em formato contrário, anti-horário.

Não que você fosse contra o horário, te ouvi dizer um dia. Aproveitei para anotar. Eu estava sem papel por esses dias e comecei a anotar na pele pálida de minhas pernas. Nesse momento agradeci a minha gordura corporal ser exacerbada, assim eu teria material mais do que o suficiente para anotar.

Primeiro, anotei que horas eram quando encarei os seus olhos: eram oito horas e dezenove minutos.

Tive que fingir espantar uma mosca qualquer, apenas para chegar próximo ao seu nariz. Que como um pêndulo grande, pendia de seu rosto. Aliás, ainda bem que você não irá ler as minhas pernas, porque eu sempre te achei um tanto quanto narigudo.

Ouvi um gongo alto soar ao seu lado e me assustei. Um som tão distinto e tilintante que doía os ouvidos. Era o seu coração marcando as horas.

Tocou sete vezes. O tempo não era o mesmo para o seu órgão pulsador? Eu quase quis perguntar, mas então você saberia a meu respeito.

Ninguém além de mim poderia acreditar em uma anormalidade dessa, como dizer ao outro que conheço um homem relógio? De onde surgiu isso? A sua mãe dormiu com o relojoeiro? Ou pior, ela era casada com um benzedeiro que descobriu que era traído com o relojoeiro e então, em um acesso de fúria vingativa, clamou aos céus e aos outros, lá daquela lonjura quente, que o vingasse, que lhe desse a maior das maiores verdades incontestáveis – uma prova de sua traição. Assim nasceu você.

Escrevi isso em uma parte de meu antebraço, com caneta permanente preta. A minha mulher (que não é a minha mulher, mas gosto de chamá-la assim em meus pensamentos), dizia que eu precisava de um médico. Aquelas anotações estavam me dando urticária. Claramente não necessito de médico, apenas de mais canetas.

Você, certo dia, andava pelo calçadão em um gingado, quando alguém te parou e perguntou as horas. Lembro-me bem desse dia, já que estava há poucos passos atrás de ti. A pessoa, uma mulher, deduzo, parou e perguntou, em uma voz trêmula e baixa: “Senhor, faria a gentileza de me dizer as horas?”. Pasmem, você a empurrou!

Ora, o senhor não sabia de sua genética congênita e muito menos de seus olhos de relógio. Quanta violência, caro Senhor!

Corri para a ajudá-la, mas você saiu andando apressadamente, olhando para os lados.

Mais tarde, sentado em uma banqueta de madeira, fumei um cigarro com papel de caderno – arrá! Agora sei o motivo de meus papéis estarem findando e meu corpo estar todo marcado! – quando ponderei.

Pensei no motivo de você ser tão amargurado, além do motivo de eu ser tão apegado a esses seus olhos estranhos.

Se não há tempo, e não há o ontem e nem o amanhã (estoico demais para você?), então decidi que você não existe!

Inalei o cheiro de papel queimado e sorri. Apertei tanto os dentes que o som de dó-ré-mi-fá soou longe. Malditos dentes de teclas!

Sim, é isso mesmo, não existe tempo! Não existe você! Portanto, ao lavar as minhas mãos com essa tinta vermelha, com cheiro de ferro, sorrio mais uma vez e deixo soar as notas indesejadas de piano.


4 respostas para “Corri atrás de ti até não saber mais onde estávamos naquela linha do tempo.”

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