De camaleão à barata.


Sempre acostumada a usar maquiagem e roupas extravagantes, ela acordou querendo ser diferente.  Talvez uma epifania, ou uma luz divina.  Ela resolveu limpar o rosto, o corpo. 
Ficou sem álcool o tempo o suficiente para não sentir mais falta dele.  Ficou sem as drogas o tempo o suficiente para não sentir mais falta delas.  Se limpou das gorduras hidrogenadas, das piadas vazias, do sexo com estranho.  Se livrou das mentiras, das falsas amizades.  Se livrou de quem achava que era.  De cara lavada, corpo sadio, de alma leve, roupas normais.  Ela andou pesadamente até a porta vermelha, bateu levemente sobre a madeira. 
Uma menininha de cachorros louros, rostinho angelical abriu a porta. 
– Quem é você?  –  As lágrimas no rosto dela caiu, uma voz de dentro da casa gritou. 
– É uma estranha vovó.  – uma mulher alta foi correndo até a porta e pegou a pequena menina. 
– Quem é você? –  Foi neste momento em que ela mais chorou em sua vida. 
– Sou eu.  –  a mulher a olhou chocada, depois chorou também.  As duas se abraçaram até que os seus corpos doeram. 
– Não chora não vovó.  – Foi assim que talvez a mulher percebeu quem ela era de verdade. 
Mudar foi preciso.  Amar é necessário. 


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