Embora eu me atente as minhas intempéries, sei que sou insuficiente para o mundo em que habito.
Do mais, que mais o bem que me faz,
Eu sinto além,
De fora o que vêm,
Não importa os que veem, ainda não estou completa.
De outros modos, o que me convém,
Da mesma forma que me atém.
Ainda atada estou, aos meus medos, incólumes costumes
Os sons que escuto, o infinito zumbido no ouvido direito,
O pulsar do esquerdo,
O coração tão lento, quase um sossego
Não, eu juro que minha pressão sempre foi assim, baixinha, calminha, aos poucos quase parando,
Porque essa é minha última vida e eu vim para aproveitar o sofrimento
Dos meus bolsos já não sobraram pedras,
No meu pescoço não há espaço para cordas,
Os meus pulsos ornados com correntes,
Minhas drogas me mantêm sã, acordada, totalmente alerta.
Por que depois de um tempo já não beijamos mais?
Eu acordo ao seu lado, não te vejo,
Vou dormir “boa noite, te amo”.
Por que não conversamos mais?
Eu procuro a emoção de sentir o coração disparado, as mãos suadas, o corpo tremulo, o desejo latente, querendo dar vazão ao meu tesão.
Ainda perdida em pensamentos, com os pés firmes no chão.
Eu busco as placas da vida “Siga nessa Direção”.
Conforme o tempo passa meus olhos se tornam mais caídos,
Meus cabelos mais brancos,
Meus seios flácidos,
Minha voz esquecida.
A adultez é uma eterna solidão,
Ao ver as crianças em suas puerilidades me sinto bem, bem, bem, além
Essa é minha última vida e não verei o mundo pegar fogo
Mas, aí dos Cristãos, a Religião de única Salvação.
Se estou perdida, se ainda estou aqui, logo mais verei as labaredas de fogo me consumir.
Corre, pequeno você.
Corre de quem nos tornamos.
Corre de quem nós somos.
Corre até que um dia suas pernas irão doer, seus joelhos irão travar, sua coluna irá se curvar e você já nem se lembrará do próprio nome.
Ainda estou aqui.
Conforme nós mesmos.

Imagem: Mariana Blue

2 respostas para “De todas as minhas faces, essa é a que te olha.”
Q denso! Adorei!!!
Ah, obrigada!!!! <3