
-Sabe o que minha mãe dizia quando eu era criança? – O olhei por sobre o óculos e fiz sinal com as mãos para que eu prosseguisse.
– Ela dizia “Sou uma víbora meu amor, uma das boas, aquelas sem cor, quando a pessoa olha não sente medo, até que eu ataco.” E ela ria e bebia o gole de uísque, sempre preferiu bebidas fortes, você é nova e não se lembraria em como as mulheres daquele tempo eram severas e maravilhosas. – Ele sorrio fazendo o rosto se tornar uma mascara de rugas encolhidas e mostrando a boca com os poucos dentes que sobravam.
– Sabe, eu nunca entendi o motivo dela falar isso, nunca. Eu era uma criança boba. É, não muito esperta, nós daquela época éramos inocente, e não assanhados como a garotada de hoje. – ele apontava o dedo torto, seco e enrugado pra mim.
– Um dia eu vi a vizinha vindo chorar pra ela, elas conversaram horas, minha mãe a consolava. Eu não entendia, até que quando eu já era mais velho descobri que o marido da vizinha tinha uma amante. A amante era minha mãe, bonitona ela era. – Ele começou a rir até tossir forte e se sentou melhor. O corpo esta todo dolorido pelos medicamentos, mesmo que tuberculoso não fosse tão sério hoje em dia, o tratamento era demorado, principalmente em velhos como ele.
– A vizinha a matou na minha frente. – Novamente ele tossiu, e sangue foi expelido dos lábios secos e brancos. Eu passei um pano úmido no rosto enrugado e ferido pela idade, dei água a ele.
– Fiquei todo manchado de sangue. Depois disso ela foi presa e eu fui morar com meu pai, um homem controlador e honesto, mas quando bebia dizia que minha mãe era uma vaca. Ele durou muito tempo, me viu homem, me viu casando, depois do primeiro filho ele morreu. – Ele tossiu forte agora e se deitou, havia sangue no rosto, limpei novamente.
– Acho que nasci para ter sangue no rosto, tinha que ver como que fiquei ensopado dele quando meu filho nasceu, um menino gordo e grande, gritava feito louco. – Ele deu um sorriso seco e fechou os olhos enrugados, não sabia ao certo se estava dormindo ou morto, eu só sabia quando ele tossia forte novamente. Hoje ele me contou como a mãe foi morta na sua frente, ontem havia contado em como ela morreu de câncer, como lutou contra e como não venceu e que depois foi vender bala no transito até que um velho rico o adotou.
Talvez amanhã não haja tempo pra me contar outra forma da morte da mãe, eu não esperava que hoje ela morresse de forma tão abrupta.
Ele tossiu forte novamente e resmungou em como ser velho e doente era terrível. Apliquei o medicamento na veia e sai do quarto, ainda tenho que passar pra ver a senhora que lutou na Segunda Guerra Mundial, não tenho tempo, e eles muito menos.

3 respostas para “Delírios velhacos.”
é como se estivesse lendo um livro.
Thanks! *-*
That’s well written 🙂 keep up the good work 🙂