– Estou aqui pra te ajudar, não pra te julgar. Não serei seu amigo, serei seu confidente. Todas suas dores agora serão minhas. Você vai me dizer o que sente. Você não vai me esconder o teu íntimo. Não preciso ter medo de você, você não precisa ter medo de mim. – Talvez naquele momento eu tenha nascido. Ele dizia as palavras de uma forma pausada e em sua garganta havia um vazio tão profundo que me arrepiava a alma.
– Dói, eu só sinto dor – minhas lágrimas transbordaram como se sempre estivessem ali. – E quando penso que acabou logo recomeça. – O azul dos olhos dele me afogava.
– Está com medo?
– Estou.
– É por causa dela?
– Não sei. Nunca amei ninguém. Fui criada em um sistema que não se aceita um certo tipo de amor, o amor homossexual, e eu não sou homossexual. Gosto de homens, mas também gostei dela. Isso me torna gay ?
– Não.
– Ela permitiu que eu a amasse, de uma forma devastadora. Ela levou tudo de mim, tudo. Me roubou o sol, a lua, as estrelas. Me deixou no vácuo, no meio do nada. – Como vim parar aqui? Fazendo terapia?
– Quer dar uma pausa?
– Não. Quero ficar te olhando, quero ficar morta.
– Você vai melhorar.
– Sempre melhora, não é? Sempre melhoramos!
Me levantei da poltrona e o olhei. Doutor Theodore.
– E seu pai?
– Ele me ama, só não aceita quem sou.
– Você aceita?
– Não sei quem sou. – Sai pela porta, peguei a receita com ele. Comecei tomando um medicamento controlado. Quantos mais terei que tomar pra esquecer quem sou?
Antes de sair na rua tudo o que eu via na minha frente eram flores. De todas as cores. E minha vontade era as despedaçar. Bem-me-quer ou mal-me-quer?
Despedaçando flores.


4 respostas para “Despedaçando flores.”
Viver causa um certo barulho
Uau! Lindo isso.
ohhhh. Lindo foi o que vc escreveu. Eu só reagi.
Sua reação foi linda! Lindíssima!