Diálogos rasos.


Os pelos no peito dele, eram letras. Escondidas entre os redemoinhos, diziam “Minha dor é sua dor, sua dor é minha.

— Você deveria parar de fumar – Ele me olhou e soprou a fumaça. – Minha mãe morreu de câncer.

— Pulmão? – Ele já sabia a resposta. Conhecia minha história, segurava todos os meus segredos.

— Mama.

— Então eu posso continuar fumando – Ele deu um meio sorriso, que fora omitido pelo cigarro.

— Câncer é câncer, mata de todas as formas.

Agora, as letras em seu peito, enroladas em seus pelos, diziam “ Suas palavras são suas, somente suas.”

O difícil de amar, alguém que se conhece tão bem, é saber a certeza da dor que lhe fora causada, tendo sido dor de tal magnitude, proposital. E eram assim, suas palavras. Navalhas afiadas, dilacerando os mamilos de meus seios, minhas glândulas mamárias, meu peito. Aí de meu coração, masoquista, pobre sofredor. Que de tanto amor, sofreu.

— Não é porque sua mãe morreu de câncer, que eu vou morrer também. Antes do câncer me matar, a vida já me matou.

Com nossas pernas embaralhadas, entrelaçadas, eu chorei. A dor da perda, tão fresca, me cegou para todas outras dores, o medo já não era ilusório, tão real quanto o dia, tão escuro quanto a noite.

— Se você morrer, eu morro.

— Não fale bobagens, garoto.

— Não me chame de garoto. – E ainda assim, eu o amava.

— Vista-se, temos que ir. – E por tudo o que sofri, e de todas as palavras que eu pensei em dizer, eu não disse. Apenas o olhei. Como pode o amor, ser feito de areia e com o tempo ruir?

Seus pelos em seu peito, já não eram palavras, eram apenas pelos.


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