Duas presenças.


Há algo em mim que eu sempre conheci. Não o meu corpo, meus dedos, minhas mãos ou cicatrizes. Não o meu rosto, meus olhos, meus cabelos, lábios ou voz. Essas eu reconheço agora, mas desconheço de antes. Não me lembro.

Contudo, meus pensamentos e mente eu sempre reconheço. Se me lembro, por um instante, de um momento há tantos anos, não me lembro do corpo, só da mente.

Dos meus sonhos, medos e por vezes segredos.

Por menor que sejam. Eu me recordo.

Mas e meu corpo? Se tirarem de mim, vou me reconhecer?

Se eu acordar em outro lugar, com outro nome, com outro gênero, outra vida, vou me lembrar?

A minha mente é mesmo minha? O que me separa do corpo, do nome, da mente? O que compõe minha presença?

Se meu corpo é carbono, meus pensamentos são o que? Um dia ficarão perdidos e o mundo se desmembrará e eu estarei sozinha e não haverá um eu.

Até mesmo minha mente, a única parte de mim que sou verdadeiramente eu, desaparecerá.

Um dia, nem o universo se lembrará de mim e o que hoje sou, não sou nada.


Uma resposta para “Duas presenças.”

  1. Como dizia Einsteins acerca da Realidade, o digo eu acerca do Eu: é uma ilusão persistente. Não conseguimos elaborar isso em nós porque é justamente o Eu ilusório que se descobre como tal, como em um espelho cuja imagem refletida descobrimos ser a nossa quando nossa respiração se projeta na lâmina do espelho em forma de suor. Suor rítmico, cíclico, denuncia que nosso Eu se sustenta por um continuum de vibrações.

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Ester Lima

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo