Respira. Você sabe que ele não está te olhando. Se você mostrar seu medo ele vai sentir. Calma, vice tem poder. Você sabe mentir. Você sabe fingir. Você é quem você quiser. Quem você é?
– Você estava sozinha ontem? – Os olhos afiados a encaravam o corpo todo.
– Estou sozinha todos os dias. Até quando tem uma multidão em minha volta. – Droga garota, você não sabe mentir? Por que ser tão você?
Os olhos afiados sorriram.
– Não foi isso que perguntei. Não me interesso pela sua vida melancólica.
– Talvez por isso esteja me fazendo essas perguntas. Se realmente me conhecesse saberia que odeio ficar perto das pessoas. – Os olhos se estreitaram.
– Não preciso conhecer você pra deduzir e descobrir o que procuro.
– Você se engana senhor. Se prestasse atenção no que se passa na sua volta realmente entenderia que está fazendo perguntas a pessoa errada.
– E quem é a pessoa certa? – Os olhos apenas continuou olhando. Eram vários todos os lados haviam olhos.
– Eu que deveria fazer essa pergunta. Com tantos olhos eu e ainda não viu a verdade. Sou só uma garota incompetente que devia ter mais o que fazer. – Ela sorriu. A garota amedrontada havia sumido. Sobrou apenas ela, a outra.
– Você não nos engana. Nós sabemos o que você fez. – Ela sorriu. Não tinha medo, não era apenas uma garota. Era algo mais. Mais. Bem mais.
– Sabe o que fiz ontem a noite? – Sua voz era um gemido quando disse. – Me masturbei. Gozei terrivelmente. Oh, como gozei. Eu não estava sozinha. – Os olhos se abriram até que as pequenas veias saltaram de todos eles. Todas as paredes eram olhos, todos a olhavam.
– Não queremos saber do que fez. – Eles erram.
– Você acabou de perguntar o que eu estava fazendo. – Ela riu.
– A senhorita está liberada por hora.
– Hora. Sim, vocês vão descobrir que eu não fiz nada com aquele corpo, detesto ficar perto de pessoas. Elas me dão nojo, quase como esses olhos. – Os olhos a encaravam e piscavam freneticamente. Então se fecharam. As paredes ficaram escuras, uma porta se abriu. Ela se foi.
A outra garota dormia, essa sorriu. Lambeu a ponta do dedo, ainda havia aquele gosto entre as unhas. A outra garota era estúpida, não sabia de nada, mas falaria tudo.
Quando o ar da manhã bateu em seu rosto ela riu. Odeia a tanto as pessoas que as queria pra si. Todos aqueles seres insignificantes.
Ela lambeu o outro dedo. Gosto de ferro.
Sorriu novamente. Os olhos se foram, agora só o que sobrou foram as bocas.
– Não tenho medo. Sou uma garota forte. – Mas uma garota forte se parte e vira duas. Qual delas ficou com a força?
As bocas sorriram.
