Entregue às aves de rapina.


Me entreguei aos braços dele, totalmente desnuda de alma.

Contei os meus segredos mais obscuros. Chorei lágrimas de vergonha. Senti a dor da repulsa.

Entreguei a mim os sentimentos que odeio.

Senti a vulnerabilidade na carne. O desejo de ser querida ultrapassou os meus medos.

Senti a ânsia de choro, a dor do desespero. A saudade do que nunca senti.

A ti, a quem mais quis, entreguei a arma, a única, pertencente a nós.

E quando você me sorriu, me mostrou os dentes hostil, e me beijou,

Ali, naquele momento, me matou.

E de mim, a esfaqueada, com o coração aberto, a carne rasgada, só sobraram palavras

O sangue que não era sangue, eram letras miúdas, tinturas escuras, notícias passadas, de mim saíram todas as frases.

Da dor, um livro, do sofrimento uma trilogia.

De nós dois, você ficou.

Eu parti e nunca mais fui vista, nem por ti, nem por mim.

Já no espelho quem me olha é outra.

Já no livro, quem narra é ela. Aquela que nunca fui capaz de ser.

A que sofreu e se entregou, a que amou e esqueceu.

Do meu peito, escancarado, os urubus sobrevoam e comem minhas palavras

A última que ficou, foi uma simples oxítona.

E com ela, eu termino essa parte.

Um último grito,

Amor?

Dor.


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