
Vou contar a história da Gina. Gina, doce e linda Gina, não uma garota comum, ou até comum de mais, depende do teu grau de normalidade. Gina Vermelha, Gina sangrenta, Gina doce, doce Gina.
Entendam, não se julga um livro pela capa.
Gina era uma garota invisível, ninguém a olhava de frente, conversava com ela, ou a tinha como amiga. Ela era uma bonita garota que se escondia em roupas largas, cabelo bagunçado, franja longa, óculos grandes e voz sussurrada. Como uma garota normal, mesmo sendo invisível, ela amava, amava Paulo, ele era um garoto popular, que todas amavam, bem típico. As pessoas a ignoravam de tal forma que um dia a professora foi em uma excursão com os alunos, Gina também foi, era num museu de artes históricas, e ela ficou lá encantadas com aquelas coisas mortas, milenares. E quando se fez a contagem para ir embora não se lembraram de Gina, ela ficou. Paulo riu-se da “garota invisível” quando finalmente ela criou coragem e declarou o seu amor. Todos troçaram de Gina, jogaram os seus livros na água, roubaram o seu dinheiro e até a sua pasta secreta jogaram num lixo qualquer. Como uma garota normal Gina chorou, chorou até não poder mais, resgatou aquilo que era os seus amigos, seus tesouros, ou o que sobrara deles. Ninguém ligava para a pobre garota magra e pálida, pelos seus óculos maio que o rosto ou o seu cabelo bagunçado, ninguém, Gina estava sozinha no mundo, até seus pais se fora. Ah, havia a sua avó, uma doce senhora, que contava para Gina sobre aquilo que os homens não gostavam, aquilo que poucos amavam, contava história que muitos temiam, e Gina as amava, as histórias de terror de sua avó Ana. Naquele dia de tardezinha Gina pegou os seus cacos, os recolheu e colocou numa sacola de chita, e carregou até sua casa, destroçada, humilhada. Gina chegou em casa toda acabada, triste, com o coração em pedaços. “Gina, querida, venha aqui, o que houve?” Gina chorou nos braços quentes se sua avó amada, aquela que a protegia. Não contou, era uma história de terror apenas sua. Naquela noite abraçada ao seu coração retalhado ela contou uma história a si mesma, aquela em que ela era a amada. Não demorou que os sonhos viessem lhe mostrar que ela não era mais do que uma simples garota feia, desarrumada, sem amor, sem amigos, sem nada. Sonhos mentirosos esses, esqueceu-se de falar de sua avó, aquela que a amava.
Gina, Gina, Gina, querida, não se deixe enganar com mentiras, você já fora mais inteligente que isso. Ela nada se importou, só queria aquilo que qualquer um cego pela dor iria querer, vingança.
No outro dia Gina acordou determinada, pegou a antiga maquiagem que fora um dia da avó, pegou a tesoura no armário, e se transformou, a lagarta saiu do casulo, e se mostrou uma bela borboleta, os óculos continuou grandes, mas o rosto se mostrou o mais belo. Gina sorriu para si mesma, ela agora é uma menina bonita, e ninguém vai a chamar de invisível.
Na escola já sentada em seu lugar de costume, Gina mascava um chiclete de bola, e fazia barulhos com os lábios. Paulo, aquele em que a rejeito e troçou de seu amor ficou encantado, com a beleza da nova garota. Um trunfo para Gina, ela está conseguindo atenção. O dia passou-se normal, todos a admirando, até uns beijos de Paulo conseguiu uns beijos que por sinal eram ruins, o garoto popular só sabia falar, mas beijar que é bom, nada! Gina foi embora como uma boa libertina, estava gostando do seu novo papel, só faltava o ato principal, aquele que iria se deliciar. As vozes lhe sussurravam na mente, lhe diziam o quanto era bonita, e que aqueles que a ofendeu na a merecia. “Perdedora.”, diziam, e logo em seguida “Você só tem a beleza, cadê a inteligência Gina?”, e ela lhes ria, queria mostrar para seus novos amigos o que poderia fazer realizar com seu coração estraçalhado e mal colado.
A garota renovada sentou-se de frente ao seu computador, aquela noite não jantaria, queria apenas trabalhar. Gina criou um site na internet, e jogou todos os seus medos e receios, também sabia o que causava dor, medo, depois de ser maltratada ela os perdeu, não é o pior mostro aquele que não teme? Aquele que já sentiu medo e sabe o seu ponto?! Ela sabia o que dava medo, e não temia mais o medo, agora Gina era outra, queria ser o Medo. O site de Gina estava maravilhoso, mas precisaria gravar os seus feitos, sabia que iria precisar de sacrifícios, as vozes lhe diziam “Apenas será forte quando matar, mas sabemos que você é uma covarde, incompetente!” Ela começou a gritar, rir-se como uma louca. “EU SOU BONITA, SOU INTELIGENTE, SOU O QUE TODOS VÃO QUERER SER!” Sua avó se assustou, entrou no quarto de Gina temerosa “O que é isso minha filha? Você esta bem? Nunca te vi tão exaltada. Machucaram-na novamente?” As vozes, “Machucaram?” “Sacrifícios.” “Covarde” “Você não é nada, nem bonita, nem inteligente.” Ela gritou, gritou, gritou, e na quinta vez que foi gritar ela calou-se e olhou pro seu computador, ligou a câmera e foi pra cima de sua avó, o sorriso, ah o sorriso, um sorriso tão doce, meigo, fofo. “Olha vovó, olha para a câmera. Como eu sou linda né!” A avó lhe sorriu e passou a mão nos curtos cabelos de Gina. “Você é muito linda sim minha filha.” Gina pegou a tesoura e retalhou a sua avó. “Eu fico linda de vermelho, me empresta o seu sangue.” Dava tesouradas, e mais tesouradas na velha senhora, o sangue a tingia de vermelho, e Gina sorria, agora, Gina era o Medo.
No outro dia Gina foi para a escola, distribuiu cartazes do novo site ela sorria para cada um com sua nova blusa vermelha, as pessoas a amavam neste momento, Gina também, ela se amava. Disse para todos entrarem no site e se entreter, prometeu diversão, mal sabiam que era para si mesma a própria diversão. À noite Gina se sentou no quarto avermelhado, sua avó dormia no fundo do quintal, mal enterrada. Quando Gina entrou no site, se deliciou, com as mortes e medos que proporcionou, no outro dia, a escola estava devastada, com a quantidade de mortes em uma só noite, todas suicídio, diziam. Mas Gina e as vozes sabiam que uma menina bonita era também uma grande artista. Talvez Gina tenha apenas se libertado.
