– Tenho perdido tanto da minha vida. Vivemos para chegarmos aos sábados. – A senhora tossiu e continuou fumando. – Todos os dias são iguais, nós tolos humanos concordamos em lhes dar nomes, a partir daí nasceu o poder.
Ela olhava para o nada, no nada havia uma janela, a janela era de madeira envelhecida, na vista da janela havia flores, rosas do deserto, das flores se viam as abelhas, de lá vem o mel.
– A senhora se arrepende de algo?
– Arrepender? – Ela riu tossidas. – Eu arrependo de tanta coisa que o estaria morta morta se isso matasse.
– Exemplo? – O rapaz apertou o botão do gravador e continuou gravando.
– Começar a fumar. Na época era legal, mas acabou com meus dentes. – Ela continuou fumando e tomou um gole d’água.
– Perdi a virgindade com o Tomás Valadares. Como fui idiota, na época meninas da minha idade só perdia virgindade se fossem casadas, putas, amantes, apaixonadas, violadas ou doidas. Eu fico com o grupo de doidas e apaixonadas. Talvez um pouco no de putas. Devia ter perdido com o Carlos, ele era rico. – Ela sorriu, o nada se transformou em um filme e ela o assistiu sozinha.
– Por hoje terminamos, tenho que fazer hemodiálise. – Ela virou pró lado e se cobriu com a manta que estava dobrada nos pés. Ela sempre mentia dizendo isso, mas essa era a forma dela de dizer que o passado tem sombras e elas a atormenta nesses momentos. Terminiei por ora, havia muito o que saber de uma mulher que matou mais de sessenta homens ao longo de sua vida. Fui embora olhando pra trás, nunca se pode confiar no inimigo.
Ester Sousa.
