In- Sano.


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Feridas abertas alojam vermes.

 

Todas as vozes me chamavam
-“Por aqui” – Todas as vozes em coro cantavam, e eu olhava para aquelas vozes encapuçadas de branco, e todas elas choravam
-“Não por aí” – eu olhava para as vozes e elas me transmitiam medo, e eu tentava fugir.
-“Não por aí” – e as vozes em coro cantavam e choravam, numa harmonia por mim desconhecida. Ah, e eu, pobre virgem, olhava para os pés desnudos e via pétalas brancas caindo do céu, não havia flores, apenas as pétalas, não caiam do céu.
-“Não recolha as pétalas” diziam as vozes, e eu delicadamente peguei uma, sentindo o meu coração na boca, sentindo o meu corpo balançando num tremor nunca sentido. Passei pelas vozes e fugi para o campo, não queria que elas me seguissem, mas elas diziam
-“Não por aí, volte, volte” – ah, e como elas choravam, as lágrimas caiam e eu podia ver o rio se formando, tão límpido quanto as lágrimas, tão solitário quanto as mesmas. Corri sem destino, com os pés desnudos de alvos para as pedras impiedosas, e com as feridas vieram as bolhas e com a bolhas vieram o sangue, e com o sangue chegou o cansaço e eu desmaiei.
O sol tão forte me iluminava e me esquentava a pele, me queimando e fazendo mais bolhas aparecer, as vozes haviam sumido, me deixaram, elas me enganaram, roubaram e seduziram, para que no fim me deixasse sozinha a mercê do mundo. Tentei levantar, os lábios rachados em sangue, a boca seca pedindo água, e meus olhos turvados querendo ceder, mas não posso, disse a mim mesma, sou a virgem, e a virgem não pode perecer.
Senti então algo morno me subindo pelas pernas, tampouco era água, tampouco era salvação. Agora eu morro, pensei. A serpente veio dançando pelas minhas pernas, deixando o rastro do teu corpo comprido e esguio me tatuar com sua cor marrom esverdeada e me enganar com seus olhos vidrados, ela veio tão serena, veio me subindo, já estava na barriga, já não respirava, já não sentia o coração bater, já não sentia medo, ele era eu. Ela chegou até meu rosto, ficou face a face, passou sua língua fina por meus lábios e me mostrou suas presas, quando fechei os olhos eu senti, lá estava as presas cravadas nos meus lábios, e dos pequenos furos, tão bonitos, tão sensíveis meu sangue jorrou, trasbordou gotas suaves e me lavou o corpo seco, do céu caia pétalas e elas me banhavam no teu aroma embriagador. A serpente saiu de mim, e eu caio aos poucos, a visão escurecida, o mundo nunca me pareceu tão grande, tão solitário, e eu a virgem irei ceder, disse a mim mesma, quando estava deitada no chão, banhada de pétalas banhada de sangue, a serpente me sorriu e nas suas presas eu vi, não havia veneno, não havia suco, havia apenas meu sangue e pequenos furinhos, e os furinhos saiam água e de água minha boca transbordava, a serpente foi-se embora, e ela me salvou. Levantei-me e fui andando, no céu que não chovia pétalas chovia pétalas e elas me banhavam de pétalas transbordadas já não me havia mais sangue, apenas a mancha de quem sacrificou e sobreviveu, a serpente me salvou, a serpente sou eu. 


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