Por um longo tempo eu nadei, mergulhei nas profundezas da água azul até meu nariz arder. Deixei os olhos abertos para ver aquilo que eu não podia ter, paz.
Quem é esse que criou o céu na terra e nos fez necessitar dela pra viver? A água.
Fecha os olhos, menina, feche os olhos e respira.
É tudo o que eu preciso, respirar e deixar a água fluir pelos pulmões até estourar.
Meu corpo foi feito pra flutuar.
No ar, o ar de águas me cercando de nada.
O nada é a morte que cobre minha vida e se vai.
Onde vai, onde vai?
Repito, sem nada.
Volta, de volta para a superfície.
Você não vê? Não pode me salvar. Eu há muito tempo fui o que era antes de você me amar, agora sou sombra, pó e água.
Ninguém vai me salvar.
Se foi, se vai, eu fui.
Mergulha, mergulha outra vez na profundeza do teu ser.
Teu cerne, teu âmago, teu êxtase por me matar.
Você não vê? A culpa é sua, só sua.
Voltei, a superfície me chama com teu canto de Vento do Sul.
O ar entra e deixa a água vazar, e ela vaza aos montes pelos olhos brilhantes.
Volta, volta, a água clama.
Não mais. – Não mais!
Mas ela não ouve, ela continua o curso da correnteza, eu fui, ela vai.
A água flui, dentro de mim, 70%.
Respira, inspira.
Voltei.
Voltei limpa e nua.
Nua e pura.
Pura e viva.
O mar está dentro de mim.
