O sopro do ar frio mexia com o cabelo negro fazendo que as ondas se emaranhancem uma na outra, a pasta em uma mão e na outra puxava o casaco para perto de si.
– Lúcio, aqui, querido! – A bela mulher vinha em sua direção com um sorriso que iluminava todo seu sorriso.
Ele sentiu um aperto no peito e sorriu para a morena enquanto caminhava em sua direção para fugir do frio.
– Como você está, querida?
– Oh, você sabe, todo o trabalho duro, as horas sem dormir, ter que cuidar da casa nas horas vagas e as horas extras.
– Meu Deus, Rute, falando assim me sinto até por ter vindo te encontrar no seu dia de descanso.
– Não seja bobo, você sabe o quanto eu gosto de exagerar. Bem, é aqui, chegamos, entre.
Os longos cachos pesados cheiravam a coco com baunilha e quando ela passou por ele sentiu um leve aroma cítrico. O cheiro não era o mesmo, com os anos ele mudou, como era mesmo quando jovem? Fazia tanto tempo.
– Lúcio? Não está me escutando, parece até que viajou para longe.
Ele sorriu para ela e passou a mão no cabelo para tentar colocar os fios no lugar.
– Às vezes certos cheiros são nostálgicos.
– Isso sim, outro dia eu estava em uma praça e senti um cheiro que me lembrou dos meus tempos de escola, ficou uma sensação no peito, um aperto no fim na boca.
– Ah, já senti isso antes, é como se houvesse perdido algo.
– Exatamente!
– Bom dia, posso ajudar? – Uma moça jovem veio com um cardápio e entregou a ambos.
– Bom dia, querida, vou querer uma vitamina de morango, mas sem açúcar, por favor, vocês tem stevia?
– Sim, com stévia, e para o senhor?
– Vou querer um café grande, leite e esses bolinhos aqui, hum, bolinhos de chocolate, são bons?
– São os melhores, senhor! – Ela sorriu e recolheu os cardápios.
– Bem, onde estávamos?
– Em sentimentos nostálgicos.
Ela sorriu, passou a mão no cabelo e continuou a falar sobre amenidades e coisas do seu dia a dia.
Ele olhou para ela e sentiu uma dor no coração, de repente tantos “e se…” Vieram em sua mente que o arrependimento deixou um gosto ruim na boca do estômago.
– Então, Lúcio, conta-me o que quero saber. Está casado? Ah, faz tanto tempo em que éramos jovens e aventureiros, lembra-se da época que acampamos na primavera e ficamos molhados o tempo todo?
– Por insistência sua, devo te lembrar!
– Foi mesmo, mas naquela época eu tinha uma paixonite por você e não via a hora de você perceber.
– O que? – Ele passou a mão pelo cabelo num gesto que já se tornava repetitivo, a moça veio com seus pedidos e deixou na frente deles.
Rute corou suavemente sobre a pele achocolatada.
– Ora, vai me dizer que não se lembra?
– Eu, bem, eu não sabia, nunca soube!
– Mas como não? – Ela pegou um de seus bolinhos e tomou a vitamina.
– Ah, essa vitamina está horrível, açúcar que é bom, mas o médico proibiu.
– Por quê? Você sempre foi tão saudável.
Ela sorriu timidamente e colocou as mãos na barriga.
– Bem, não é por mim, é pelo bebê.
O coração de Lúcio tornou a se partir.
– Você está grávida?
– Não sabia? Você nunca fica atento a nada, fico imaginando como pode ser advogado, deve perder todos os prazos. – Ela sorriu e pegou outro de seus bolinhos.
– Mas por que você nunca chamou minha atenção, já que gostava de mim?
– Bem, eu era boba e acreditava que os homens deviam tomar a iniciativa, já que você nunca tomou eu pensei que não gostava de mim.
– Mas eu gosto! Digo, gostava. – Ele tomou um gole de seu café.
– Você não devia comer esses bolinhos, devem ter açúcar.
– Ah, mas quando é assado não importa, né? A química faz todo o trabalho.
Ele sorriu, não achava que era bem assim, ela sempre fazia isso, quando era proibida de algo achava outro caminho que melhor lhe agradava.
– Pois bem, eu devia ser a advogada e não professora.
– Você é professora universitária, acho que está melhor que eu.
– Não seja bobo, Lúcio!
– Quantos meses?
– Anos, você não sabe? Assim que me formei em publicidade eu me especializei para dar aulas, fiz aquele mestrado que eu te disse uma vez no churrasco do Pedro.
– Sim, me lembro, você estava tão empolgada. – Ela balançou a cabeça enquanto comia mais um de seus bolinhos, ele sorriu.
– Mas eu não perguntei do trabalho, perguntei da gravidez.
– Ah, claro, verdade, como sou boba. Estou de três meses. E você, filhos?
– Não, nenhum.
– Casado? – Ele sorriu.
– Quase, mas não deu certo, sabe como dizem, ela era boa demais para mim.
– Bom, nem eu, na verdade o pai do bebê e eu nem namoramos, sabe como dizem, uma noite é o suficiente.
– Sim, mas às vezes nem muitos anos o são.
– Ei, Lúcio, vamos nos manter em contato, sempre estamos apenas nos falando por redes sociais, é tão formal.
– É sim.
Ela tomou a vitamina e ele pediu mais café, não havia mais bolinhos, ela comeu todos.
Ele se levantou para ir ao banheiro e quando voltou não a encontrou em lugar nenhum. Seu telefone tocou.
– Ei, Lúcio, eu tive de ir, não fique chateado comigo, ok?
– Está tudo bem?
– Sim, sim. Lembra que estávamos falando de nostalgia? Deu apenas um gosto ruim na minha boca e um aperto no estômago, bom, nos mantemos em contato.
– Sábado eu tenho ingressos para aquele espetáculo que está tendo na cidade, quer ir comigo?
A linha ficou muda um instante.
– Não posso… Tenho que ir, abraços! Desculpe sair assim, sem avisar.
– Tudo bem, se cuida, abraços!
A linha ficou muda. Ele se lembrou, com um gosto ruim na boca, há muitos anos atrás, no acampamento, ele disse que gostava dela, ela riu e disse que também gostava dele, que não poderia ter um amigo melhor.
Rute sempre foi boa em propaganda, mas como publicitária ela deve saber, propaganda enganosa é crime.
