Incansavelmente, eu digo isso com lábios e dentes, olho para a tela vazia e oblíqua do meu celular.
Entre meus dedos, ossos, unhas e carne, desço infinitamente até que meus olhos ardam.
“I will explode“, eu ouço Hooverphonic, ao fundo da mente.
De tantas maneiras de desvairar, meu cérebro tende a me enganar; entre dopaminas vazias, eu sigo rolando, na perpetuidade do universo. Perco-me de mim vazia, sem sonhos, com as sinapses cerebrais vergonhosamente inferiores ao meu passado.
O que pensaria, aquela que lia clássicos e ria dos estranhos, que tinham vidas inóspitas? Ela estaria rindo com escárnio, xingando, com vergonha de si mesma.
Há algo que me conforta na música e não são as vozes roucas, celestiais, encorpadas, suaves. São os sons matemáticos, mágicos que me jogam para fonte, empurrando meu corpo sólido, para o universo incorpóreo.
De matemática não entendo nada, mas não há vergonha diante da verdade. Afinal, para que necessito números se me afogo em palavras? Meu cérebro fervilha de vogais, fonemas, palavras escritas que não sei pronunciar e que, ao dizer em voz alta, estão erradas, se perderam nas curvas lisas de massa cinzenta.
Deste lado, tudo é mais belo, tudo é certo: aqui a verdade é minha, a deusa sou eu; se eu digo, aceite.
Minha palavra final não é poesia.
Sentencio a ti: lê-me!
Ah, que sentença é essa, a gramática não mente, guilhotina nela!
Inescrupulosa, já não há mais mulheres assim. Dos olhares sedutores, apenas um dedo para o lado. Não se importe comigo, estou apenas olhando para seus olhos desguarnecidos. Há tanto dentro de ti, tanto, um médico legista há de querer ver!
Quebrei a tela que encarava, não era a óleo, muito menos suave aquarela.
Os pixels já me deixaram cega. Não há nada para olhar aqui, vá lá!
