O jeitinho dela sorrir e então ficar séria e olhar, com aqueles olhos enormes e brilhantes. Ah, como me irrita toda essa superioridade, essa benignidade angelical perversa, manipuladora.
A forma em que eu sorrio para ela, mexo em meus cabelos e concordo com todas as palavras tão vazias e ocas que eu poderia enfiar os meus dedos, minhas mãos e braços e as estraçalhar em sílabas cortadas, vogais soltas e consoantes esvoaçantes. De digo, digo mesmo!
É tudo mentira, essa psicopatia, esse corpo quadrado tentando se adequar ao losango. Se vire, então!
Os cabelos tão retos, tão longos e lisos que podem esconder o veneno adocicado e adorado ao qual lutamos para provar “só um gostinho, morro de pouquinho”.
Prometo, se eu sorrio para você e te mostrei todos meus dentes cariados, cheios de tártaro, sem esmalte, alguns até mesmo quebrados. Eu sorri. Aprecie a cor da minha gengiva esbranquiçada, desidratada. Se tem água eu bebi, se eu bebi eu chorei e se chorei, eu mijei por entre minhas pernas gordas e cheias de celulites. Em cada buraco cabe um adulto encorpado.
Você com sua pele imaculada, seus modos ensaiados, enfeitiça ao espelho, mas não ao reflexo e eu sei que você se vê.
Se estou aqui ao seu lado e percebo que você é êcov então alguém mais também irá perceber.
Do alto do seu salto de perna de pau, alguém irá sorrir e com os dentes afiados irá mastigar, mastigar até que a madeira apodrecida se parta e então, durante oito dias você irá cair gritando em espiral “aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh”. Caiu.
No chão só veremos as penas ensanguentadas e o halo quebrado.
Aqui eu sorrio com meus dentes esburacados.
“te trouxe um docinho, especialmente para você”.
O meu sangue espeço tem gosto de nada. Ele é amarelo ocre.
