No espaço que há em mim, saiu uma lagarta viva.
Verde, gorda e gosmenta.
Era minha.
Eu chamei de Amiga.
Amiga pesava.
Amiga era esfomeada.
Come minhas palavras.
Coloca palavras em minha boca,
Agora a Amiga me diz que eu sou errada.
No espaço que havia, saiu uma cobra.
Ela comeu Amiga.
As palavras agora são minhas.
Chamei a Cobra de Boa, e Boa era pequena, preta e branca, toda escorregadia.
Boa dormia na mesma cama que eu.
Boa comida ratos, baratas e até mesmo galinhas.
Cresceu e se tornou maior que eu.
Às vezes ela me observa, e às vezes eu a observo.
Quando nós dormimos ela se estica até onde vai meus pés.
Boa se enrosca em mim, diz me proteger.
Um dia boa se enroscou tanto que me sufocou.
Eu estava a morrer.
Boa queria era a mim, queria me comer.
Por sorte, no espaço que havia em mim, saiu um cachorro, ele era grande, era peludo e confiável, ele mordeu Boa, a sacudiu, a matou e a comeu.
O cachorro era meu.
Ao invés de lhe dar um nome, eu perguntei a ele o dele.
Alastor, ao seu dispor.
O cachorro era meu, eu era dele.
Você pode ir onde quiser.
Alastor me olhou, me lambeu e se foi.
Fiquei sozinha, chorei, mas o espaço continuava vazio.
Depois de muito tempo Alastor apareceu com um homem.
Ele se machucou numa caçada, o ajudei, mas ele me pediu para o trazer aqui.
Qual o seu nome? Perguntei.
Me chamam de Primeiro
Por muito tempo ele ficou.
Eu, ele e Alastor.
Com o tempo eu o amei e ele me amou.
No espaço que há em mim, ele plantou amor, dentro dele há um ser que é meu e dele.
Ainda não saiu.
Demora meses, disse ele.
Hoje o primeiro se tornou Amor, e Alastor nosso fiel companheiro.
