Eu ainda era criança, mas os meus olhos curiosos via o que não devia e ouvidos aguçados ouviam muita coisa que não era sensato a uma criança pequena ouvir.
Minha vó naquela altura fazia tempos que não batia bem da cabeça. O rádio ligado vinte e quatro horas por dia era para que ela não escutasse as vozes que lhe falava.
Às vezes, quando desligava ela quebrava a casa e ameaça de morte os outros e a si mesma. Então ficava, vinte quatro horas por dia a falar a falar e cantar.
Eu já era criança e sabia que era igual a ela. Não sabia dizer se era desejo ou vocação. Eu era triste e isso bastava. Algumas pessoas são tristes e outras ficam triste.
Hoje, já na idade adulta eu comecei a escutar as vozes. Mas elas ainda são um sussurro. Elas são sombras no escuro. Passos em cima da casa, barulhos vindo de fora, galhos quebrados e ventos na janela. Estão lá. Uma hora ou outra ou vou ligar o rádio ou vou partir para outra. Qual será?
Minha vó já se foi há tempos, mas lembro que toda vez que eu ia tomar banho ela estava lá quando fechava os olhos. Sempre observando, aguardando. Eu vou ou eu fico? Eu sou ou não? Ainda está cedo, mas mesmo agora eu já tenho o futuro, porque eu sei, já começou.

Uma resposta para “O ascendente de agora. ”
Uau arrasou