O espelho que me faz ver você. 


Os lábios vermelhos pelo calor do chá quente. Os olhos nublados pela fumaça que sobe. As mãos delicadas segurando a xícara de porcelana chinesa, tão delicada quanto a mulher que a segura. As pernas inquietas vão para frente e para trás.            “Manu?”, A mulher continuou olhando pra frente olhando para o sol que banhava as flores no jardim. “Manu?” Ela balançou a cabeça como se acordasse de um sonho. O olhou, ali em pé, perto da porta de madeira, a parede pintada de branco, os detalhes em flores, o amarelo da poltrona. “Sim?” O homem suspirou, aliviado com algo que passou rapidamente pelos seus pensamentos e deixou um peso de chumbo. “Venha pra fora, querida”, ela o olhou, sorriu delicada, olha só como é esse homem, não passa de uma criança “Estou morta, Pedro. Não vê? Você me matou!” O homem a olhou, ali sentada na poltrona, ela estava tão bela, tão plena, a blusa branca cheia de sangue. “Verdade, matei mesmo!” O vento soprou pra dentro de casa um cheiro podre “Agora eu ficarei aqui por toda eternidade!” Ela disse como se ele não soubesse. O homem sentou, as mãos nos cabelos pretos e fartos, os olhos cheios de lagrimas, um suspiro do fundo do intestino. “Manu, você que se matou” foi só um sussurro, só uma piscadas, ela se foi. “Não Pedro, foi você, não lembra? Eu era você, sempre fui. Você me matou!” 

Agora, já está de noite, o vento vai e vem quando quer, a lua surge no seu esplendor, o cheiro das flores inebria o ar. 

Alguém entrou e o olhou, “Pedro, venha!” Ele olhou, era ela, ali em pé, o olhando. “Onde?” “Ora, onde?! Comigo, venha para a sala, claro!”. Sorriu, ele pulou, agora estava com ela, do outro lado, bebendo chá, como sempre esteve e como sempre deveria estar, na sua sala, no seu lar. 


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