O fio da lembrança que vem de um novelo de lã.


Não sei o que tenho que me torna tão esquecida. As lembranças se perdem em meu cérebro em seus infinitos labirintos.

Ás vezes sinto que há várias camadas de lembranças, onde uma se sobrepõe a outra e as unem em sentimentos e confusão, até que as enormes camadas se achatam em uma linha tão fina que não sobra nada.

Da minha infância não me lembro de todos aqueles anos e da minha adolescência há enormes buracos.

É como se eu constantemente me tornasse outra pessoa com os mesmo sentimentos, medos e dores, mas cada vez que me torno outra, o que passou também se perde.

Quando falo as palavras, elas somem e se trocam, como se eu houvesse sido enfeitiçada por alguém tão atroz que me deixa sempre reiniciando.

Me sinto incapaz de formar frases e conversas com pessoas normais.

Me sinto extremamente burra, já que tudo o que eu aprendi, perdi.

Eu gostaria que houvesse um diagnóstico para essa minha falta de cérebro ou cérebro esburacado.

Mas toda vez que digo “esqueci de tantos anos de minha história que parece que não as vivi” e o outro diz “é a depressão”.

Só que agora já não a depressão.

Já não há dias sem fim que se emendavam no outro e tudo o que eu sentia era uma vastidão infinita de um vazio sufocante.

O que me resta agora?

Tenho medo do que não me lembro, mas ao mesmo tempo fico feliz por não lembrar.


Uma resposta para “O fio da lembrança que vem de um novelo de lã.”

  1. Me sinto extremamente burra, já que tudo o que eu aprendi, perdi.

    Há, sim, a conclusão positiva e, na minha opinião, provável. Tudo é mutável ao nosso redor e em nossa mente. Se aprendemos e retemos demais coisas do passado, ficamos pesados, com um fardo muitas vezes inútil.

    Colecionar lembranças não as tornará, necessariamente úteis. Num deserto, uma coca-cola salva vidas; num aniversário, só aumenta a dor de barriga.

    “Examinai tudo; retenha o que for bom (e útil).” (1 Tess. 5:21)

    U:T:I:C:

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