O mar que vive no meu teto.


No teto do meu quarto há umas escamas, elas se balançam e se mexem e eu sinto o cheiro do mar.
A calda que se forma é longa e forte, como um músculo bem malhado que não se cansa de exercitar. Teu cheiro me inebria, me embebeda, quase uma memória distante. Um pensamento passa por mim, mas ele não é meu. Como seria meu? Como eu saberia que sim?
Tenho vontade de cantar para o mundo todo uma música que não é minha. Gritar, gritar.
Nade, Nade, Nade.
Tão fácil sentir os que os outros sentiu. Mentira.
Sua barbatana é poderosa, verde, azul, dourada, prata, marrom, amarelo, laranja, lilás, rosa. Quantas cortes cabem num prisma só?
Estou olhando o teto do meu quarto e o mar caiu em mim, sinto seu gosto quente e salgado, sinto molhando o meu rosto. Engraçado como esse mar tem o mesmo gosto das minhas lágrimas.
– Escuta, ainda vou aí te buscar –  A calda, barbatana se mexeu e foi embora. Mas o mar ainda cai em mim.

Ester Sousa.


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