Manhã.
-Desde quando, Aurora, tu danças enquanto eu toco?
– Desde ontem, há dez anos atrás quando eu ainda era menina e escutava escondida atrás da porta.
– Você me escutava tocar?
– Sempre tive inveja de como tu acariciavas as teclas brancas e negras com tanta delicadeza.
– Nunca fui delicado.
– Sempre fostes, apenas não é galante.
– Ainda dança?
– Todos os dias.
Tarde.
-Aurora?
-Sim?
– Ainda dorme?
– Não mais.
– Sentes falta de tua infância?
– Às vezes.
– Hoje?
– Hoje não.
Noite
-Aurora?
– Estou ouvindo.
-Queres escutar uma música?
-Teus dedos não doem?
-Não para uma última música.
-Então quero.
-Vou te dedicar, ao meu final de vários anos, uma música que toca minha alma quando toco os teclados do piano.
-Qual?
– Você vai saber.
-Estou tão longe, já não consigo levantar de meu leito.
– Não precisas querida, a valsa dançará diante de ti.
-Aurora? Meus dedos doem, mas meu coração se alegra.
-…
-Aurora? Tu já partiste.
