Lá estava ela deitada, uma roupa que não pertencia, uma maquiagem que não era do próprio gosto.
Lá estava ela, de braços cruzadas e fazendo o que mais amava. Dormia profundamente, um sono pesado, não respirava.
Ao seu redor haviam flores, pessoas, renda cobrindo um rosto que nunca se casou de véu e grinalda.
Lá estava ela, sem saber quem a rodeava. Sem saber.
O corpo, por fim, foi dado a uma Instituição prestigiada, novos rostos virão, novos dias, novos toques.
Alguém com uma navalha afiada a abriu, a costurou.
Os fios delicados se trançavam num zigue zague do peito ao umbigo.
— Escutem todos, tenham respeito com a *******, antes de ser um corpo, foi uma pessoa. Antes de estar aqui, vivia.
Já não ouvia mais, mesmo que os ouvidos estivessem intactos.
Já não pensava mais, mesmo que o cérebro certa vez estivera saudável.
— ******* faleceu de *****. – Um garoto magrinho e tremulo segurou as mãos descoradas e gordinhas.
— Mas se ela não tivesse falecido de ***** em tantos meses teria morrido de ******.
Todos olharam, anotaram, tocaram e seguraram.
— Também teria desenvolvido doença de ******.
Assim continuou por longos dias. Um vai e vem de casacos, jovens famintos por conhecimento. Os corpos dispostos em macas.
O frio de gelar os ossos.
— Qual o nome dela?
— ******.
Outro dia, outras pessoas.
— ***** faleceu de ***** ou de *****?
— O nome dela é ****, não?
— Não lembro, mas acho que é *****!
— Não tenho certeza, então deixa com o nome de *******.
Lá estava ela, deitada e dormindo o sono dos eternos, já não tinha corpo e muito menos nome.
Lá estava ela ou um dia já estivera?
Se o nome não era o que havia no princípio, já não era a mesma?
Se mudam o nome, continuamos os mesmos?
Lá estava ela, um reflexo do que já esteve.
