Meu coração voltou a doer, depois de tantos anos, aconteceu.
Aquele momento, em que o sangue corre pelas artérias, pelos ventrículos, pelos buracos que se formaram, desde a última vez que amei.
Meu coração, composto por tantas partes, que se torna dois, três, sete.
Um não é o suficiente, por todas as coisas que passei, sofri.
Agora, ele bate, pula, revira, expande.
O que me dói são os olhos, maior que minha cara, que quer tudo o que não posso.
Por isso me deixe dormir, para que eu os feche, não veja nada, engula tudo e me contente com as fantasias que me mantém.
Se não fosse o sussurro do vento que me diz que o mundo é maior que o meu, eu não estaria aqui.
Eu não estaria.
Porque a terrível verdade é aquela que não sei, a que eu busco e busco e sofro e suspiro e choro e grito. Em silêncio.
E em silêncio eu permaneço e em silêncio me mantenho.
Aquelas drogas que bebi, entorpeci e fingi que vivi? Tirou minha vontade de partir, morrer e sumir.
Também tirou todas as outras que me faz o que sou.
Agora, eu estou em pé, na base de um penhasco, olhando à distância do mundo e percebendo que o Olimpo se encontra a um centímetro de alcance da minha cabeça.
Do outro lado do espelho, onde eu mesma seguro os meus sonhos.
Com minhas garras eu os rasgo, com meus dentes eu os arranco, mastigo e engulo.
E meu pobre coração, que fica aqui e se expande em dois, em dez, em mil, sangra.
O sangue que me cerca, que me afoga e que me faz dormir.
Os meus olhos permanecem fechados, mas meus dedos se movem e movem e movem e no ápice do meu prazer, eu sumo, entre os sumos de minhas pernas.
