Eu olho para os objetos que um dia você tocou e tento ver as digitais deixadas.
Não as vejo, óbvio e, ainda assim, eu tento sentir, com as pontas dos dedos, os seus dedos, os resquicios de o que um dia você tocou.
O tempo corre para uns e se torna inerte para outros, coisas, lugares. Se move de forma diversa do que o nosso tempo, o calendário, o relógio, a vida, doença, morte.
Eu toco esses objetos e ainda assim, não sinto nada. Não há nada para sentir, os objetos inanimados, os sentimentos deixados, passados, sentidos e até mesmo esquecidos.
Ainda hoje tento me lembrar da sua risada e não me lembro. Ao mesmo tempo não permito me submeter a tortura de escutar um áudio deixado. Para minha dor, há limites impostos. Eu não acredito em relembrar sem sentir. E dói, a perda dói, a saudade dói, a morte dói. E relembrar é doer. Não quero relembrar com materialidade, quero relembrar a partir do abstrato de minha mente, sem limites, formas e trajetos.
Quanta dor há no mundo? Não estamos todos sozinhos? Ainda assim, compartilhamos a mesma dor, todos os dias, minutos, segundos, milésimos de segundos. A dor é a mesma, o sentimento não.
Suas digitais, provavelmente permanecem, as imagens, som e até mesmo o cheiro, estão aqui, na minha memória. Da forma em que eu desejo lembrar. A dor é controlada e até mesmo fantasiada. Ainda dói. Provavelmente continuará doendo para sempre, apenas a intensidade que transforma. Há dias que aguento, há dias que choro.
