O teto parece como qualquer outro tento, o ventilador rodando, quase preguiçosamente. As paredes, ora brancas, agora manchadas e rachadas. Dentre as frestas eu consigo ver além.
Diante do escuro, você pode dizer quem é você? Eu não consigo. Hoje mesmo olhei para meu nome e encarei aquelas Cinco letrinhas e percebi, depois de uns segundos, que eu não sabia a quem pertencia. Era meu mesmo? Existe a possibilidade de um nome impostor? Por toda minha vida me chamaram de Nome, mas esse nome não era o meu? O que o qualifica como personalíssimo?
Dentro das rachaduras eu vejo dentes. Afiados, pequenos, que sorriem enquanto a língua cheia de ventosas lambe as frestas de gesso e tinta.
“Nome” — Sussurrou. É claro que meu nome não é Nome. Mas que graça teria eu dizer um nome ao qual não identifico?
Sussurros vem e vão.
— Olha pai, é um macaco! – Os dedinhos pequenos apontando para os miquinhos na árvore.
— Micos, bebê. — Tão profundo teu suspiro, se foi a lembrança.
Agora a fresta está maior e consigo ver os olhos. Poxa, quantos olhos!
Eu estremeço. Não, eu finjo que estremeço. A falta de nome me torna inominável? Me torna insensível? Invisível?
E se na verdade eu estiver em um motel, com um espelho no teto e os olhos me olhando são os meus, os dentes sorrindo, os meus. O pesadelo que encaro, eu. A língua ventosa, que gruda por toda parte, você.
Ainda assim, ainda estou aqui.
Se as paredes realmente têm ouvidos, tal como minha avó, que Deus a tenha, dizia, então por que ninguém escuta meus gritos? HAHAHAHAHA.
Ninguém escuta os gritos da alma, porque são silenciosos. Os gritos da carne vibram, tremem, e viajam no tempo.
Ainda assim, aqui estou, indomável, inominável, com o monstro cheio de dentes e olhos me encarando.
— Venha… — Eu vou.
Se dentre tantos eu existo, o que dizer do restante de vocês? Se estou aqui, o que dizer dos outros?
Se dentre nós, há outros, o que acontece com os que vão?
As paredes nos veem? O tempo para? O silencio permanece?
Ontem mesmo eu chorei. Dentre o choro, segurei as lágrimas e fiquei soluçando, com o peito expandindo e contraindo até que me calei.
Você vê? Se vê? Chorar também te dói? Segurar o choro te consola? Deixar os soluços silenciosos, os torna menos doloroso? Assim como no espaço, a ausência de som entre as explosões, são as dores no meu coração.
Tum-tum-tum-tum. Uma máquina capitalista, que não para em detrimento aos outros, uma máquina de carne que bate, até que os pedaços se unem e o pulmão se enche de oxigênio.
Ah, meu amor. Não me olhe assim, não pisque esses incontáveis olhos e não e mostre esses dentes aterrorizantes. Não somos todos monstros?
Da minha janela eu vejo a sua, mas sua ausência se mantém. Eu te vejo, mas tão longe que apenas sua sombra permanece, e no decorrer dos momentos o meu maior medo não é o espelho, é a escuridão que se transpõe através do tempo. Hoje, a memória me mostra seu corpo rígido e distante, mas amanhã, não pertence a ninguém.
