4.1

Novamente ele acordou, não acreditava no que havia sonhado. A cabeça e o corpo todo doía, era uma sensação ruim. Ele tinha lágrimas nos olhos, elas caíram molhando o travesseiro.
-Olá Bernardo. – Ele escutou a voz já tão conhecida e continuou deitado. Não importava, queria ficar sozinho, nunca o deixava ficar sozinho. Sempre lhe diziam dos transtornos que ele, tinha sempre os remédios. Sempre. Ele nada respondeu, então ela prosseguiu falando.
– Você está melhor? – Novamente ele nada respondeu, ficou olhando o teto e o encarando. Queria engolir as lágrimas uma coisa que não conseguiria mesmo que tentasse.
– Bernardo, você tem que falar. Tem que me dizer o que houve! Tente se lembrar, eu já te disse que suas memórias estão aí, mas com o tempo você inconscientemente aprendeu as bloquear! Vamos querido! – Meire falava com sua voz suave de sempre, eles se conheciam a tanto tempo quanto era possível. Ele tinha 14 anos agora, mas a conheceu há sete anos quando ainda era um garotinho. Ela virara sua psicóloga desde então.
– Como Alice está? – Ele disse isso quase que para si mesmo. Ela não respondeu por um tempo, pegou a mão dele e apertou gentilmente.
– Estável fisicamente. Mas não há retorno no quadro clinico mental, ela irá ficar assim pelo resto da vida, eu sinto muito querido. – Ela apertou novamente a mão dele para dar apoio, ele a puxou e se virou de lado, ficou na posição fetal e chorou mais. Não conseguia se lembrar, não queria se lembrar!
– Tente se lembrar Bernardo, pense na cor que treinamos para poder ajudar a desbloquear memorias! – Quando ele era mais novo, depois do acidente com a sua mãe ele bloqueava as memorias ruins, quando no seu aniversário não ganhava abraços da sua mãe ele esquecia aquele dia completamente no outro e não se lembrava de nada, ou quando alguém brigava com ele, quando se machucava, quando tirava nota ruim. Tudo era bloqueado, mas ele e a doutora Meire trabalhavam juntos nesse processo de “desbloquear” as memorias, até conseguiram algumas técnicas, quando isso acontecia ele pensava numa cor, e ficava tentando se lembrar, no começo ele tinha apenas fleches curtos de lembranças, mas com o tempo os fleches foram aumentando, mesmo que ainda não conseguia se lembrar completamente das memorias bloqueadas. Então ele fechou os olhos e pensou em Alice, na risada dela, no jeito engraçado quando gargalhava, na vez em que os dois fugiram do instituto pra comprar chocolate escondido, na promessa que haviam feito quando eram crianças.
