Há você e há eu. Ambos existimos no mesmo tempo, mas não ao mesmo tempo. Às vezes eu estou presa no passado e às vezes no presente. Ha momentos em que te vejo, mas não te enxergo e há momentos em que sinto que só eu vejo e você não. Faz sentido?
Ao pensar que as palavras não são o suficientes, nunca são. É assustador. Conhecer todas essas palavras, estruturar frases, adequar o tempo verbal, colocar o sujeito em seu próprio lugar. E ainda assim, ainda assim maravilhosamente mal. Um oximoro. Ironia. Entre seus olhos, suas janelas, meus lábios a porta da alma, suspirando palavras e elas perdidas ao vendo, intransponíveis aos seus olhos, com sua parede de vidro e seu zumbido interno. Zum Zum Zum Zum. Você me vê, não me ouve. Zum Zum Zum. É quase a fonética de minas palavras.
Estamos fazendo o certo? Essa trilha que se estende aos nossos pés são mesmo uma coberta de retalhos ou uma coberta de crochê?
Esse tanto de palavras e eu falo e eu falo e eu falo e eu falo e nada. Nada. Como ondas dentro do mar, nada nada nada. A praia lá longe, a areia tão próxima, mas o cansaço me esgota.
Nem se parece mais um paraíso, só uma miragem qualquer que eu posso imaginar daqui mesmo olhando o céu azul enquanto boio nessas águas ou seria o teto do quarto enquanto o ventilador gira e gira e eu deitada na cama?
Uma brisa. Quase isso, até parece isso. Mas não, as palavras podem cortar até mais que lâminas afiadas, espadas pesadas, mágoas passadas.
E esse Zum Zum Zum vem de dentro de mim? Do meu ouvido esquerdo ao qual tenho certeza que há algum nível de perda auditiva, entregando nunca comprovei com um médico.
Seus olhos me olham, mas parecem tanto opacos. Será o Vidro que nos separa? Será que aí dentro existe um paraíso igual ao que vejo, aqui deitada nesse Mar que me abraça com minha coberta que pode ou não ser retalhos ou de fios entrelaçados? Será que a opacidade é da umidade que existe por detrás dos teus cílios, um extenso paraíso de mata tropical?
O que nos separa se nem minhas palavras são capazes de entender?
Argh. Isso até me dá um medo. E em você?
Esse vidro, que você tão ironicamente chama se teto, eu chamo de parede. Às vezes as paredes resistem mais que os tetos. E para comprovar minhas palavras é só observar essas construções abandonadas, sem teto para ampara-las, mas cheias de parede para separar.
Separa, separa. E eu ainda não sei se o vidro também é meu ou seu. Eu vejo, eu falo. Nada nada nada. É quase como se o Zum Zum Zum fosse maior que você e eu. Não um som, um ruído e, sim palavras. Em outra língua. Minha língua é diferente da sua. Essa é a barreira que nos separa?
