Pip: Ester Lima escreve como quem sabe que o silêncio também tem peso — e cobra por grama.
Mara: Hoje percorremos três territórios que ela mapeia com precisão: desejo e o que ele revela sobre quem somos, memória e o cotidiano que a ancora, e finitude como presença constante, não como ausência.
Pip: Vamos começar com desejo — e com o que um homem faz com os olhos num restaurante.
Intimidade e o que o desejo denuncia
Mara: A questão aqui é simples e incômoda: o desejo nos denuncia antes que a gente perceba. Em “Na minha vez foi diferente”, a narradora chega ao restaurante trinta minutos antes do combinado e observa o homem que a espera — e o que ele faz enquanto espera.
Pip: E o que ele faz é bastante revelador. “Os seus olhos seguiram o corpo todo dela, quase de modo que eu pudesse ver uma linha orgânica ligando-os ao objeto de desejo.”
Mara: Essa linha orgânica é o cerne do conto: o desejo como algo involuntário, legível, que a narradora vê com clareza enquanto ele não sabe que está sendo visto. O poema “Pulsação” comprime isso em três linhas — “Peito aberto que pulsa a vida em um instante o silêncio hesita” — o mesmo instante de exposição involuntária, só que sem testemunha.
Pip: Trinta anos de casamento depois, ela ainda é a Cidinha que observa. Nada mudou — exceto quem está do outro lado da mesa.
A alma da casa são os outros
Mara: Memória, aqui, não é nostalgia — é arquitetura. “Brasilidades: se for cozinhar, amarre o cabelo!” reconstrói a casa da avó Maristela tijolo por tijolo: o alpendre de cacos de piso, o cheiro de bolinho de chuva, a tia Lia com a perna torta batendo palmas para a televisão.
Pip: Uma casa construída com dois sacos de feijão e um mutirão de irmãos. Hoje nem com reza braba se levanta isso.
Mara: A conclusão que o texto alcança é direta: “a alma da casa são os outros.” Não o chão vermelho, não o sofá novo que a avó não deixava manchar — são as pessoas que fazem o barulho.
Pip: E quando elas vão embora, o silêncio que fica não é paz — é ausência com endereço.
Mara: É exatamente o que “Fragmentos” documenta em datas soltas: 2001, 2020, 2025. Uma criança que vê o irmão cair do brinquedo. Uma adulta que implora a Deus no quarto de hospital. Uma mulher sozinha na praia tentando lembrar a voz do pai aos gritos — e não conseguindo mais.
Pip: Memória como algo que também envelhece. Você não perde a pessoa uma vez — perde em parcelas.
Mara: “Fragmentos” coloca isso numa frase sobre o corpo: “É isso que envelhecer significa: sinais de que somos finitos.” O cotidiano e a finitude estão no mesmo parágrafo, sem separação.
Finitude como presença, não ausência
Mara: O poema “Ao final do dia, todos nós estaremos juntos no mesmo lugar” não trata a morte como destino distante. Ela já está aqui, na textura da pele, no chão úmido, no fogo que toma o corpo ao lado.
Pip: “O corpo é massa, o oxigênio é combustível, o fogo é vida, que toma.” Três equações. Nenhuma saída.
Mara: O que o poema propõe é uma espécie de pertencimento radical — ao final, todos no mesmo lugar. Não como consolo, mas como fato. E “Fragmentos” já havia preparado o terreno: a finitude não chega de repente, ela vai rangendo pelas articulações desde cedo.
Pip: Desejo que denuncia, memória que envelhece, finitude que já chegou — Ester Lima não deixa muito espaço para ilusão.
Mara: Mas deixa espaço para atenção. Que é, talvez, a única resposta honesta a tudo isso. Até a próxima.
Atenção: O podcast foi feito por IA, porém usando conteúdo autoral humano, da autora Ester Lima.
