Olá! Eu resolvi postar aqui algo que escrevi, apesar de fugir muito do meu próprio estilo eu me inspirei e resolvi postar.
Joana se sentou na mesa, cruzou as pernas e suspirou. Se continuasse com os suspiros iria sumir, já estava magra mais do que o suficiente.
Ela pegou uma caneta, um papel branco manchado pelas bordas de café.
Começou a escrever, rabiscou um pouco e depois continuou. Queria chorar, mas não iria chorar, não agora. Seus olhos ainda ardiam da última vez.
Suspirou outra vez, recomeçou.
Meu nome é Joana e fui deixada (literalmente, baby). Essa é uma carta inteiramente particular e falo um monte de merdas nela, se você não gosta de ler isso então nem perca teu tempo. Aliás, ela é bem depreciativa e fala sobre o bosta que me deixou e a droga que virou minha vida.
Hoje o dia está chuvoso, cinzento e tão bom quanto um dia assim pode ser.
Estou escutando uma música há horas e só agora me dei conta de que ela está se repetindo. e repetindo porque a caixa de som está estragada, afinal, você era quem arrumava as coisas por aqui.
Se alguém ler isso já vai se dar conta que eu estou sozinha. E eu poderia mentir que você morreu me amando até o último minuto de sua vida, até o último suspiro. Que suas últimas palavras foram você “eu te amo, fique bem”. Mas bem, quem me conhece saberia que eu estou mentindo. Você se foi, num belo dia de sol, que aliás eu detesto, e simplesmente disse que não me amava, fim!
Agora estou solteira, com os pelos do corpo todo enormes, porque estou morta de preguiça de me depilar. Meu cabelo está duro, deve ter dois dias que não lavo (mentira, são seis dias e contando), minhas unhas estão lascadas e com o mesmo esmalte da última vez que usei (nem preciso dizer que faz tempo), me acabei de tomar sorvete e comer brigadeiro (ao menos os eliminei do meu corpo com a diarréia monstro que me deu), enfim, estou horrível.
Estou tão triste, estou com tanto medo. Tem ideia do que é viver com uma pessoa por 3 anos e do nada o amor some? Agora eu não consigo pensar sem tremer inteiramente que se eu arrumar um outro alguém ele vai me dar um pé assim que o amor acabar.
A merda toda é que meu amor continua aqui me afundando e afundando e blá…
Ainda bem que estou de férias da Revista, se eu tivesse que escrever alguma matéria sequer sobre mulheres felizes e bem resolvidas eu iria vomitar até a alma.
Vou parar de escrever por aqui, alguém tocou a campainha (deve ser para ver se o meu corpo já começou a feder).
– Quem é?
– Oi, er, sou seu vizinho, o Téo.
– Olha, não conheço nenhum Téo e você pode muito bem ser um estuprador, louco, pervertido querendo usar minhas calcinhas.
– Putz, você inventou isso agora? Você me conhece tem quase quatro anos, vivia me pedindo coisas emprestadas, tipo açúcar, sal, pimenta, tempero, panela, copo… E nunca devolveu! Agora eu preciso da minha panela que pegou da última vez!
– Aaaah, você é o vizinho quebra-galho!
Joana abriu a porta e o olhou, como nunca tinha reparado nesse cara? Ah sim, estava ocupada demais reparando seu próprio namorado, ex-namorado.
– Você me chama assim? Isso é constrangedor! Ele ficou vermelho e franziu as sobrancelhas.
– Aliás, que fedor é esse?
Joana olhou para os lados, pensou em dizer que o cachorro tinha morrido, mas no prédio não era permitido cachorros, então ela nunca teve cachorros e claro, o Ex também não gostava de cachorros. Quem não gosta de cachorros? Sociopatas, psicopatas, pedófilos, pessoas nascidas para o mau! Devia ter desconfiado antes.
– Pode ou não pode ser eu e pode ou não pode ser a minha casa, também pode ser isso tudo junto num do pacote fedorento.
– Putz, se a vigilância sanitária aparece aqui manda demolir o prédio só por causa do teu apartamento.
Joana não estava para brincadeiras, estava nervosa, acabada, o coração tinha sido sapateado numa dança nada bonita chamada “pé na bunda”.
– Olha só “cabelinho”, entra, pega tua panela e some! Estou muito ocupada!
– Estou vendo mesmo, mas estou com medo de entrar, aqui tá meio nojento.
– Vai se foder!
Joana ia fechando a porta, mas Téo entrou antes e a fechou.
– Teu nome é Téo mesmo? Sabe, porque eu acho ridículo essas pessoas que tem um nome enorme e cafona que se auto dão apelidos para esconder a vergonha.
– Não, é Mateos, com O, e eu acho ridículo, então prefiro Téo, que é como todo mundo me chama, menos minha mãe, é óbvio, afinal, como ela diz, a culpa não foi dela por meu pai ter dito o nome certo e o atendente ter escrito errado. Aliás, você não está em condições de julgar ninguém…
Ele franziu o nariz e olhou para o apartamento bagunçado e sujo.
Joana só o olhou, por incrível que pareça ela estava sem argumentos.
– Onde está a panela?
– Deve estar nessa pilha de louça suja..
– Putz! Tem louça de uma semana aqui.
– Provavelmente de mais tempo.
– O que houve? Você está, tipo, doente? Doença terminal? Por isso o fedor?
– Vai a merda!
– É sério!
– Se quiser tua panela você lava a louça.
Joana não ia contar que foi chutada, afinal, ela já estava uma pilha de nervos e pronta para chorar, e ela não iria chorar na frente desse rapaz. E ele não era cego, se a observava como dizia deveria saber que estava na fossa ou será que não? Esperava que ele fosse sonso bem como a cara que ele tinha às vezes.
Ele resmungou alguma coisa e começou a lavar a louça. Joana não aguentava ver aquela cena, era como lembrar do passado, ver o ex ali a olhando lavar a louça, já que ele menso não lavava por ser alérgico ao sabão.
Ela se levantou, foi até o banheiro e resolveu tomar um banho para chorar até secar.
Ela tirou a roupa, entrou embaixo do chuveiro e chorou. Chorou até que seu coração se renovasse. Nada aconteceu. Então ela só tomou banho, se olhou no espelho, o cabelo longo desgrenhado.
Num impulso ela pegou uma tesoura da gaveta e o cortou bem curto, até que ficasse na altura do queixo.
Se vestiu e foi ver o que o homem estava fazendo.
Ele havia não só lavado a louça, mas também havia limpado o chão, organizou os livros, tirou os lenços sujos de lágrimas e catarros.
Afinal, quanto tempo ela ficou no banho?
A carta!
– Você leu minha carta?
Ele se virou para ela, não a tinha visto.
– Uau, você cortou o cabelo e tomou banho.
– Leu a minha carta?
Ela já estava gritando.
– Não! Pelo amor! Você pensa que eu sou o que?
– Jura?
– Juro! Eu só organizei as coisas por aqui, pensei que você ia gostar. Mas ok, de nada, eu já peguei a panela e os copos que achei e estou indo.
Joana se sentiu envergonha, ela passou a mão no cabelo e se lembrou que o tinha cortado, o ex amava os cabelos longos. Se sentiu mais leve depois que fez isso.
– Desculpe, eu me alterei. Obrigada também, você não precisava ter arrumado as coisas.
– Tudo bem, você parece meio mal. Mas não fique, aquele cara é um babaca.
– Então você percebeu…
– Esqueceu? Já são quase quatro anos que te conheço, ao menos de longe.
– Sim, verdade. Desculpe, eu quero ficar sozinha.
– Tudo bem. Você quer que eu traga comida? Minha mãe está vindo e ela faz uma montanha de comida toda vezes que vem… Eu até te convidaria, mas acho que você não vai querer ficar respondendo as mil perguntas que ela faz.
– É, melhor eu ficar quieta aqui mesmo.
– Ok, você quem sabe.
Téo se foi, escrever a carta perdeu toda graça. Joana se deitou e ficou pensando, parte da casa estava arrumada, faltava a outra parte. Resolveu limpar e tirar toda aquela amargura de si.
Se lembrou de Téo, ou Mateos, ou Quebra galho, de qualquer forma, quase sorriu, quase. Ao menos teria comida para mais tarde. E havia se depilado, como era bom sentir as pernas lisas, sentir o corpo limpo. ( Depila quem quer, quem se sente bem com o próprio corpo da forma que ele é e tem essa opção de fazer o que melhor lhe agrada, e eu amo me depilar, então assim o faço.)
Limpou a casa, ligou uma música, dessa vez no computador, colocou um mix mais alegre.
Guardou a carta, talvez continuasse depois, talvez não.
A casa já tinha um bom cheiro agora, não iria chorar por causa daquele canalha. Não mais.
