– Disse que ia parar de pintar. – Um quarto claro, mas com telas tão escuras que parecia noite.
– Disse. – Cada pincelada uma assinatura.
– Mas está pintando. – Calças jeans cheias de manchas, sem blusa. Ela usando um vestido verde, fora de moda.
– Estou. – Um silencioso pesado cheio de sons.
– Pare de falar nesse tom. Odeio! – Uma voz amargurada saindo de lábios vermelhos mal feitos.
– Odeia muitas coisas. Cuidado que morre jovem. – Um sorriso implícito numa boca torta. De fora o vento.
– Não antes que você. – A janela agora aberta trás a brisa fresca e leva o cheiro de tinta, mas deixa cair o pincel.
– Essa doeu… – Abaixou pra pegar, sujou a barriga e o braço de azul.
– O que está pintando? – Falava sem olhar pra ele, de costas pra porta e olhando a janela.
– O dia de ontem. – Olhou pra ela, ela o olhou e desviou.
– Mas tudo tão escuro? Sombrio… – A voz quase um sussurro. Pegou um cigarro, se atrapalhou com o isqueiro e quando tragou soltou mais que fumaça, um suspiro de alívio.
– Não disse que foi um dia bonito. Hummm, fumando… – limpou as mãos num pano velho e tomou um copo de água. Agora o sol estava forte, pronto pra ir embora. Olhando pela janela viu uma árvore grande. Será que sabia pintar ou apenas sombras e riscos?
– Nunca parei. – Também olhava pra fora, pra longe da árvore, longe do quarto, longe dali.
– Só mentia. Sabe, antes que me olhe com essa cara feia já vou dizendo, você mentir para os outros até funciona, mas nunca para si mesma. É uma droga. – Olhou outra vez pra ela e imaginou a pintado. Apenas uma pintura sem vida, sem carga, sem nada.
– … Por que me ligou? … Tenho uns compromissos, você sabe. – Coçou a nuca, mordeu o lábio.
– Calma Dani. Aqui ninguém mais morde. Perdi meus dentes há muitos anos. – Sorriu de lado mostrando os dentes brancos e colocou uma blusa. Amarela. Cheia de manchas.
– Não é o que parece. – Desviou o olhar envergonhada.
– Nada é como parece. Você me mostrou isso há muito tempo. – A voz tinha gosto de café puro, sem açúcar.
– Me chamou pra falar isso outra vez? – Suspirou outra vez, sem fumaça.
– Não, chamei pra te dar um presente. Espere aqui. – Olhou pra ela por um tempo, saiu pela porta.
– Uma tela em branco? – Uma grande tela ele carregava, deixou do lado.
– Não, pintada com o que você fez comigo todos esses anos, contigo e sem você. Todos esses dias. Todos esses momentos… – Os olhos carregados de ódio e algo mais. Na mão uma arma.
– Que isso Mateus, não tô entendendo… Não! Não brinca com isso. Solta a merda dessa arma. – Ela já não fumava, as mãos no ar.
– Você fez isso, você fe…- Ele gritou, apontou a armar atirou.
– NÃO – A tela ficou pintada em sangue, ele caiu pro lado de olhos abertos, olhando a pela pintada de vermelho, única cor viva em meio há tantos tons escuros sombrios. Ela caiu com ele, mas não morta. Totalmente atordoada. A mão a puxar o gatilho não foi a dela. A razão? A razão sim. O vento soprou trazendo o cheiro da primavera. O sol se foi.

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