Que deixe a terra comer o que os mortos deixaram.


A porta estava toda arranhada, já gasta por alguém, ou algum ser cansado de esperar, chamar sem respostas.  Velha e lascada, era essa a porta de madeira.
Depois de tanto tempo fechada ela se encontrava  entreaberta, eu entrei.  O cheiro de podridão permanecia no ar como a única fonte de oxigênio presente e eu tive que inalar.  Meu corpo se recusou a tal fedor, meu estômago revirou, minha boca salivou em meio ao suco gástrico que subiu. 
– Que nojo.  –  Eu disse,  nesse momento a velha riu, quando os lábios dela murchos, acompanhados de uma boca se dentes se abriu o cheiro de podridão se misturou ao de cigarro. 
– Se está aqui é porque quis, abriu a porta queridinho.  Ela passou a mão na cabeça já sem cabelos, por exceção de um tufo ralo e sem vida que se encontrava cheio de caspas.
– Como vive assim sua velha infame?
– Da mesma forma como você vive seu jovem tolo.  Cala a boca,  cala, cala, cala, cala! –  Ela se levantou, sua estatura não passava 1,47.  A coluna curvada numa corcunda eterna. 
– Aceita um gole de água ardente? – Ela riu novamente.  Se abaixou em meio a sujeira e podridão e tirou uma garrafa.  Antes que se voltasse a ficar ereta, na medida em que podia,  caiu dentre os seios murchos e velhos um punhado de varejeira. Elas se multiplicaram e subiam por toda parte, pequenas pelotas brancas se mexendo para vários lados. 
– Como vive aqui sua velha porca?
– Ainda está aqui? – A velha cuspiu escarro num balde cheio deles.  –  Você está se vendo por dentro.  Eu sou você. 
Eu sou você, eu sou você.  Eu sou você.  Eu sou a velha. 
O homem correu e tentou abrir a porta, mas ela havia se fechado.  Ficou tanto tempo tentando que a arranhou, tirou sua cor, tirou suas lascas.  A porta não se abriu. A mesma porta que entra é a mesma que sai.  Ela só muda de lado.  Só abre uma vez, se fecha pra sempre. 
Eu sou você.  A velha sou eu. 


3 respostas para “Que deixe a terra comer o que os mortos deixaram.”

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