Encontrei um relógio que eu procurava há muitos anos. Um relógio que herdei de minha avó, que faleceu precocemente aos 43 anos. Logo depois, já há muitos anos depois, o meu pai também faleceu, aos 44 anos. Filho dela, a quem puxou tanta dor. Tiveram uma vida difícil, mas espero que em certos momentos tenha sido uma boa vida. Assim como a nossa. Então, nostálgica, escrevi algumas palavras. Aqui vai, boa leitura.
Encontrei em meio aos documentos antigos, cartas e desenhos esquecidos, o relógio de uma antepassada.
Há muito tempo ela se foi, ainda me lembro do seu cheiro.
O mesmo fio que a costurou, também bordou o meu amor. Nesse ponto puxa uma linha, bem próximo ao meu pai já perdido.
Eles se foram rumo ao horizonte, onde o sol nunca se põe,
presos em uma quase noite.
Deixe-me dizer algo sobre o amor,
ainda tão nova eu o temia.
Não entendia o motivo de sermos assim,
obrigados a amar a quem não gostamos.
Quando crescemos aprendemos,
abraçamos a todas as crianças,
as que fomos,
principalmente, aos nossos pais,
as crianças que nunca permitiram que eles fossem.
O relógio está parado,
há muito tempo oxidado.
O tempo passou, passou, passou.
Mas ainda, neste relógio, são 4h00 de um dia 4 qualquer.
Onde será que o meu fio está costurado?
Nessas linhas têm bordados?
Há miçangas decorando?
Será que foi um bom ponto?
