Eu tenho uma necessidade de falar e falar, falar. Enquanto falo externamente, jorrando palavras, muitas vezes aleatórias, internamente estou em silêncio, gritando, arranhando minhas paredes metaforicas, “cale-se! Cale-se!” E eu grito, me ignoro.
Depois, após gritar tudo o que gritei, falar tudo o que falei, eu me sufoco em autodepreciação, me sentindo vazia e sem sentido. Me questionando, o motivo de não ter ficado em silêncio, de ter rido menos, de ter opinado nada.
Assim, sou eu. Uma ninguém para alguém.
Eu mesma.
Nesses momentos, meu corpo sente uma necessidade terrível de se deitar, um quarto escuro, ventilado rodando no teto, janelas fechadas, o quarto sombreado em sua suave escuridão.
Meu refúgio externo. Onde meu interno se regozija em sua solidão.
Ontem mesmo, falei durante horas com alguém, a quem não convém dizer o nome, mesmo que fosse, não saberia dizer.
Fiquei horas falando das antigas civilizações, das mentiras que nós moldam enquanto sociedade para acreditar na maldade, no eterno sofrimento do inferno, nas diretrizes doutrinadoras da Igreja a qual fomos moldados.
Me diga, somos ou não somos, todos filhos da colonização?
Ainda, como seres escravizados, continuamos encarcerados na maldade da civilização.
Não chore, todos seus problemas vão ser resolvidos com antidepressivos, desenvolvidos durante décadas pelas indústrias farmacêuticas.
Não se automutile, ficarei do seu lado, enquanto alguém te analisa, te psicanalisa, te escuta e te auxilia.
Somos filhos de filhos dos filhos de alguém.
Somos órfãos do sistema político, social, econômico em que vivemos.
Enquanto você lê, enquanto você fuma, bebe, transa, chora, ri, come, dorme, defeca, dança, encanta, desespera, o mundo continua.
No fim, ninguém está nem aí!
Somos fumaças do universo, somos pó das estrelas, somos água, carbono, cérebro.
Cadê os ETs que me prometeram? Não era para eu estar chorando, desesperada, esperando a dominação mundial?
Spoiler, já ocorreu.
Por que teme muito mais a hipótese, muito mais a teoria, do que os seus olhos já estão vendo?
Por que teme e teme e desespera pelo que acha possível acontecer, mas não vê o que já está acontecendo?
“come, meu filho, ou você ficará igual aquelas pobres crianças da África! Veja aqui essa foto horrível de uma criança praticamente esquelética com um urubu a vigiando!”.
Vocês me enojam
Querem prosperar em cima dos esqueletos alheios, com os pés ensanguentados de sangue dos pobre de nós condenados.
“Do outro lado do mundo tem gente sofrendo!”
Acorde! Olhe para o lado!
Estamos todos sofrendo, ficamos tão absortos naquilo que querem que vejamos, que não percebemos, a mão que aponta o dedo é a mesma que aponta para o extermínio de todos nós, somos os mesmos!
Voltei ao início, falei coisas que não deveria ter falado, que no fim não vale um centavo, uma permuta numa pechincha.
O pior é falar para o nada, querer lutar contra algo maior que tudo isso que somos.
Se nem Sócrates conseguiu, se nem Platão com a alegoria da caverna nos convenceu, quem dirá eu?
Ainda tento. Hoje mesmo tentei. Ontem mesmo. Amanhã também.
